Em outubro de 2021, Mark Zuckerberg tomou uma decisão que poucas empresas do tamanho do Facebook teriam coragem de tomar: mudou o nome da companhia.
Facebook passaria a se chamar Meta. Instagram, WhatsApp, Messenger e o próprio Facebook continuariam existindo, mas a nova identidade corporativa deveria representar algo muito maior. Zuckerberg acreditava que a próxima grande plataforma tecnológica seria o metaverso, um universo de experiências digitais imersivas no qual trabalharíamos, jogaríamos, compraríamos, criaríamos e encontraríamos outras pessoas.
A ambição era extraordinária. Em sua carta de 2021, Zuckerberg escreveu que esperava que, dentro de uma década, o metaverso alcançasse um bilhão de pessoas e movimentasse centenas de bilhões de dólares em comércio digital. A empresa que havia ajudado a definir a era das redes sociais estava tentando antecipar aquilo que viria depois do smartphone.
Cinco anos depois, uma coisa está clara: a Meta realmente colocou bilhões de dólares nessa visão. O público, entretanto, não correu para o metaverso na mesma velocidade.
O Facebook não queria depender do smartphone para sempre
A aposta de Zuckerberg tinha uma lógica estratégica importante. O Facebook havia construído alguns dos aplicativos mais utilizados do planeta, mas eles funcionavam principalmente em plataformas controladas por outras empresas. No celular, Apple e Google determinavam grande parte das regras dos sistemas operacionais, das lojas de aplicativos e da distribuição.
Construir a próxima plataforma poderia mudar essa relação. Se realidade virtual e realidade aumentada se tornassem a próxima grande maneira de acessar a internet, a Meta teria a oportunidade de controlar não apenas aplicativos, mas também dispositivos, sistemas e toda a infraestrutura ao redor deles.
Era uma ambição semelhante à posição conquistada pela Microsoft com o Windows ou pela Apple com o iPhone. A diferença é que a Meta precisava apostar nessa plataforma antes de existir evidência de que bilhões de pessoas realmente queriam utilizá-la.
Então veio a mudança de nome
No Connect de 2021, Zuckerberg apresentou oficialmente a Meta. Segundo a empresa, o novo nome representava uma mudança de foco para além das telas tradicionais e em direção a experiências de realidade virtual e aumentada.
A mensagem não poderia ser mais clara. Zuckerberg declarou que, com o tempo, queria que a companhia fosse vista como uma empresa de metaverso. A mudança também apareceria nos números: a Meta passaria a divulgar separadamente os resultados da Family of Apps, responsável por Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp, e da Reality Labs, onde estavam seus investimentos em tecnologias de realidade virtual e aumentada.
Essa separação permitiria ao público observar algo que antes ficava escondido dentro de uma empresa gigantesca: quanto custava tentar construir o futuro.
Construir o futuro ficou muito caro
Reality Labs não era uma pequena experiência de laboratório. A Meta estava investindo em headsets Quest, software, mundos virtuais, avatares, realidade aumentada, pesquisa e dispositivos que poderiam levar anos para se transformar em negócios sustentáveis.
Os prejuízos começaram a chamar atenção. Ano após ano, a divisão consumia bilhões de dólares enquanto sua receita permanecia pequena em comparação com o gigantesco negócio publicitário da Meta.
Em 2024, por exemplo, Reality Labs registrou aproximadamente US$ 2,1 bilhões em receita e um prejuízo operacional de cerca de US$ 17,7 bilhões. Em 2025, a receita aumentou apenas modestamente para aproximadamente US$ 2,2 bilhões, enquanto o prejuízo operacional subiu para impressionantes US$ 19,2 bilhões.
Esses números não significam que todo esse dinheiro foi simplesmente “perdido no metaverso”. Reality Labs inclui investimentos mais amplos em realidade virtual, realidade aumentada e dispositivos futuros. Ainda assim, eles mostram a escala extraordinária do custo necessário para perseguir a visão que passou a definir a identidade da empresa.
O problema de vender um lugar onde as pessoas ainda não estão
Redes sociais possuem um poderoso efeito de rede: você entra porque seus amigos estão lá, empresas aparecem porque existem consumidores e criadores produzem conteúdo porque existe audiência. Uma nova plataforma precisa iniciar esse ciclo praticamente do zero.
Para que o metaverso imaginado pela Meta funcionasse, não bastava vender headsets. Era necessário convencer pessoas a permanecer dentro desses ambientes, desenvolvedores a construir experiências, empresas a investir e criadores a produzir conteúdo. Cada grupo teria mais motivos para participar se os outros já estivessem presentes.
Isso cria um problema clássico. Usuários esperam conteúdo antes de comprar a plataforma, enquanto criadores e empresas esperam usuários antes de investir seriamente no conteúdo. Uma companhia com o tamanho da Meta pode financiar parte dessa espera, mas nem mesmo bilhões de dólares conseguem obrigar um comportamento de consumo a surgir.
Horizon Worlds deveria mostrar como seria esse futuro
Uma das principais manifestações da estratégia foi o Horizon Worlds, plataforma social em realidade virtual criada para permitir que pessoas explorassem ambientes, encontrassem outros usuários e construíssem suas próprias experiências.
O conceito representava bem aquilo que Zuckerberg imaginava para o metaverso: não apenas jogar dentro de um headset, mas utilizar espaços virtuais como lugares sociais. O desafio era fazer com que essa experiência fosse atraente o suficiente para competir com alternativas muito mais simples, como jogos tradicionais, redes sociais, chamadas de vídeo e aplicativos disponíveis em aparelhos que as pessoas já possuíam.
Esse é um detalhe importante. Uma nova tecnologia não compete apenas com produtos semelhantes. Ela compete com qualquer maneira existente de resolver o mesmo problema. Se encontrar amigos pelo celular exige alguns segundos, colocar um headset precisa oferecer uma experiência suficientemente melhor para justificar o esforço adicional.
Os avatares viraram símbolo do problema
Em 2022, Zuckerberg publicou uma imagem de seu avatar no Horizon Worlds para anunciar a expansão da plataforma. A aparência simples do personagem rapidamente virou motivo de piadas e críticas na internet, especialmente porque vinha de uma empresa que estava gastando bilhões de dólares construindo experiências virtuais.
Zuckerberg respondeu pouco depois dizendo que os gráficos do Horizon eram capazes de muito mais e que melhorias estavam a caminho. Tecnicamente, uma imagem pouco impressionante não significava que toda a tecnologia da Meta fosse ruim. Mas o episódio demonstrou novamente o problema das expectativas.
Quando uma empresa promete construir a próxima geração da internet, cada demonstração passa a ser comparada não com aquilo que existe hoje, mas com aquilo que a própria empresa disse que o futuro poderia ser.
Então o mundo começou a falar de outra tecnologia
Enquanto a Meta investia bilhões em mundos virtuais, uma nova corrida tecnológica ganhou força. O lançamento e a rápida popularização de sistemas de inteligência artificial generativa mudaram o centro das conversas no setor. Chatbots, geração de imagens, programação assistida e agentes de IA passaram a parecer uma transformação muito mais imediata do que viver dentro de ambientes virtuais.
A Meta reagiu e passou a investir agressivamente também em inteligência artificial. Isso não significou o abandono completo da realidade virtual e aumentada, mas mudou a maneira como o futuro da companhia era percebido. A palavra que havia se tornado tão importante a ponto de inspirar o novo nome corporativo deixou de ocupar sozinha o centro das atenções.
Existe uma ironia nisso. A Meta havia apostado bilhões tentando descobrir a próxima grande plataforma tecnológica. Antes que sua visão amadurecesse, outra revolução começou a disputar exatamente esse título.
Mas existe uma parte da aposta que começou a funcionar
Seria fácil terminar a história dizendo simplesmente que Zuckerberg apostou no metaverso, perdeu bilhões e estava errado. A realidade é mais interessante.
Parte dos investimentos da Reality Labs também ajudou a desenvolver tecnologias de realidade aumentada e dispositivos vestíveis. E justamente os óculos inteligentes começaram a despertar um interesse comercial muito maior. A combinação de câmeras, áudio e inteligência artificial permitiu criar experiências que não exigem isolar o usuário dentro de um mundo virtual.
Isso representa uma mudança importante. Talvez a transição para a computação além do smartphone não aconteça através de pessoas utilizando grandes headsets durante horas. Talvez aconteça gradualmente, através de dispositivos que se parecem com objetos que já usamos.
Se essa hipótese estiver correta, parte da infraestrutura e do conhecimento acumulados durante a aposta no metaverso ainda poderá se tornar extremamente valiosa.
O fracasso pode estar no prazo, não necessariamente na visão
Essa distinção é essencial para avaliar a história da Meta. Realidade virtual não desapareceu. Realidade aumentada continua evoluindo. Headsets continuam sendo vendidos e aplicações profissionais, jogos e novas formas de entretenimento continuam surgindo.
O que ainda não aconteceu é a transformação social na escala imaginada em 2021. O metaverso não substituiu a internet móvel, bilhões de pessoas não abandonaram suas telas para viver em ambientes virtuais e a Reality Labs continua muito distante de justificar financeiramente o tamanho dos investimentos realizados.
Zuckerberg pode estar errado sobre o futuro. Mas também pode estar errado apenas sobre quando esse futuro chegaria. Para uma empresa, entretanto, essa diferença pode custar dezenas de bilhões de dólares.
Por que a Meta consegue continuar tentando?
A resposta está no negócio que já funciona. Facebook, Instagram, WhatsApp e outros serviços da empresa sustentam uma enorme máquina de publicidade digital. Em 2025, a Family of Apps gerou aproximadamente US$ 198,8 bilhões em receita e mais de US$ 102 bilhões em lucro operacional.
Esse resultado permite que a Meta financie apostas que seriam impossíveis para quase qualquer startup. Reality Labs pode perder bilhões porque existe outro segmento extremamente lucrativo pagando a conta.
Isso também cria uma lição interessante sobre inovação. Grandes empresas possuem recursos para fazer apostas de longo prazo, mas essa vantagem pode esconder durante muito tempo uma pergunta fundamental: se o novo negócio precisasse sobreviver sozinho, ele sobreviveria?
O metaverso fracassou?
Ainda é cedo para responder definitivamente. Em sua própria apresentação de 2021, a Meta reconhecia que grande parte daquela visão levaria anos para ser construída. A companhia continua investindo em realidade virtual, aumentada, inteligência artificial e dispositivos vestíveis.
Por outro lado, é impossível ignorar a distância entre a euforia de 2021 e a realidade atual. O metaverso não se tornou a principal maneira como utilizamos a internet, Reality Labs acumulou prejuízos extraordinários e a atenção do setor tecnológico migrou fortemente para inteligência artificial.
Talvez o resultado final da aposta só possa ser avaliado daqui a muitos anos. Mas como estudo sobre estratégia empresarial, a história já oferece uma pergunta fascinante: quanto uma empresa deve investir para construir um futuro que acredita ser inevitável quando os consumidores ainda não demonstraram que querem viver nele?
Por que essa história pertence ao Museu do Fracasso?
Porque fracassos empresariais nem sempre terminam com empresas fechando as portas. Algumas das lições mais interessantes surgem justamente em companhias extremamente bem-sucedidas, quando elas utilizam os lucros do presente para apostar naquilo que acreditam ser o futuro.
Mark Zuckerberg teve coragem de comprometer dinheiro, reputação e até a identidade da empresa com sua visão. Isso permitiu que a Meta desenvolvesse tecnologias que talvez ainda tenham enorme importância. Ao mesmo tempo, mostrou que recursos praticamente ilimitados não conseguem acelerar todos os elementos necessários para criar uma nova plataforma.
Você pode financiar engenheiros, comprar empresas, desenvolver hardware e subsidiar desenvolvedores. O que não pode fazer é obrigar bilhões de pessoas a mudar seus hábitos antes que exista uma razão suficientemente boa para isso.
O que podemos aprender com esse fracasso?
1. Uma visão de futuro não é a mesma coisa que demanda presente.
Uma empresa pode identificar corretamente uma tecnologia que será importante no futuro e ainda lançar produtos antes que consumidores estejam preparados ou tenham motivos suficientes para adotá-los.
2. Estar certo cedo demais também pode sair caro.
Timing faz parte da estratégia. Se uma tecnologia demora dez anos a mais do que o esperado para amadurecer, financiar essa espera pode custar mais do que a própria oportunidade consegue retornar.
3. Dinheiro consegue acelerar tecnologia, mas não comportamento.
Bilhões de dólares podem contratar profissionais, financiar pesquisa e construir hardware. Criar hábitos sociais e convencer consumidores a incorporar uma nova tecnologia ao cotidiano é um processo muito menos controlável.
4. Quanto maior a promessa, maior será a comparação.
Ao mudar até o nome da empresa para representar sua visão do metaverso, a Meta aumentou enormemente as expectativas. Cada resultado da Reality Labs passou a ser interpretado como uma avaliação dessa aposta.
5. Não confunda a solução com o objetivo.
O objetivo da Meta é construir a próxima grande plataforma de computação. O metaverso através de headsets é apenas uma possível maneira de chegar até ela. Óculos inteligentes e inteligência artificial podem acabar oferecendo caminhos diferentes para alcançar parte da mesma visão.
6. Um fracasso pode produzir ativos valiosos.
Mesmo que o metaverso nunca alcance a forma imaginada em 2021, anos de pesquisa em hardware, realidade aumentada, inteligência artificial e interfaces podem gerar tecnologias aproveitadas em produtos completamente diferentes.
7. Saiba qual negócio está pagando pela sua aposta.
A Meta consegue absorver enormes prejuízos na Reality Labs porque sua família de aplicativos continua extremamente lucrativa. Projetos experimentais precisam ser avaliados também pelo tempo durante o qual a organização consegue financiá-los sem comprometer seu negócio principal.