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Empresas

Blockbuster: quando o sucesso virou uma prisão

A Blockbuster dominava o aluguel de filmes, percebeu que o mercado estava mudando e mesmo assim não conseguiu mudar com ele.

Você já continuou fazendo alguma coisa simplesmente porque ela sempre funcionou? Pode ser uma estratégia no trabalho, uma forma de vender, um produto ou até uma rotina que durante anos trouxe bons resultados. Enquanto aquilo continua funcionando, mudar parece desnecessário.

Durante muito tempo, a Blockbuster teve poucos motivos aparentes para questionar seu modelo. A empresa se tornou praticamente sinônimo de aluguel de filmes, e entrar em uma de suas lojas, caminhar entre as prateleiras e escolher uma fita ou DVD para levar para casa fazia parte da rotina de milhões de pessoas.

No auge, a companhia possuía milhares de lojas espalhadas pelo mundo e movimentava bilhões de dólares. Parecia difícil imaginar alguém tomando aquele mercado. O problema é que o concorrente que ajudaria a mudar tudo não precisava construir uma locadora melhor — precisava eliminar a necessidade de ir até uma.

1985

Blockbuster é fundada

Cresce rápido com lojas grandes, organizadas e um catálogo amplo — muito diferente das pequenas locadoras independentes da época.

1997

Netflix é fundada

Reed Hastings e Marc Randolph começam com aluguel de DVDs pela internet, enviados pelo correio.

2000

A oferta recusada

Hastings e Randolph propõem que a Blockbuster compre a Netflix por cerca de US$ 50 milhões. A negociação não avança.

2004

Blockbuster Online

A empresa lança seu próprio serviço de aluguel pela internet, mas ainda mantém cerca de 9.100 lojas e US$ 6,1 bi em receita anual para sustentar.

2005

Fim das multas por atraso

Tentativa de eliminar um dos maiores pontos de insatisfação dos clientes — justamente o que tornava a Netflix mais atraente.

Set 2010

Pedido de falência

A empresa que dominou o aluguel de filmes por décadas não sobrevive à transformação do próprio mercado.

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Quando estar em todo lugar era uma vantagem

A Blockbuster surgiu em 1985, nos Estados Unidos, e cresceu rapidamente oferecendo uma experiência diferente da encontrada nas pequenas locadoras independentes: lojas grandes, organizadas, facilmente reconhecíveis, com ampla variedade de títulos. A escala ajudava a empresa a negociar com os estúdios, ampliar o catálogo e levar a marca a cada vez mais cidades — quanto mais lojas se abriam, mais conhecida a Blockbuster ficava, e quanto mais conhecida ficava, mais sentido parecia fazer continuar expandindo aquela mesma estrutura.

Durante muito tempo, isso representou uma vantagem competitiva enorme. Mas existe uma característica perigosa em certas vantagens: aquilo que ajuda uma empresa a crescer também pode dificultar o abandono do modelo responsável por esse crescimento. A Blockbuster havia construído uma organização gigantesca para levar consumidores até suas lojas. Aos poucos, a tecnologia começaria a permitir exatamente o contrário: levar os filmes até os consumidores.

Um concorrente chega pelo correio

Em 1997, Reed Hastings e Marc Randolph fundaram a Netflix — bem diferente da empresa de streaming que conhecemos hoje. O negócio original era o aluguel de DVDs pela internet: o cliente escolhia os títulos no site e recebia os discos pelo correio. Depois, a Netflix criou um modelo de assinatura mensal que eliminava uma das experiências mais odiadas pelos clientes de locadora: as multas por atraso. O consumidor podia manter o DVD por mais tempo sem descobrir, na devolução, que precisava pagar uma taxa extra.

Comparada à Blockbuster, porém, a Netflix ainda era pequena. Em 2000, Hastings e Randolph foram até a sede da gigante das locadoras propor que a Blockbuster comprasse a Netflix por cerca de US$ 50 milhões. A negociação não avançou. Hoje, sabendo o tamanho que a Netflix alcançaria, é tentador tratar essa recusa como o grande erro que destruiu a Blockbuster — mas essa leitura tem uma vantagem que os executivos da época não tinham: nós já conhecemos o final da história. Em 2000, a Blockbuster não estava olhando para a futura gigante mundial do streaming; estava avaliando uma pequena empresa de internet que ainda enfrentava dificuldades e perdia dinheiro. Não comprar a Netflix pode ter sido uma oportunidade perdida, mas não explica sozinho por que a Blockbuster desapareceu — o ponto mais interessante da história aparece justamente nos anos seguintes, quando a própria Blockbuster percebeu que seu mercado estava mudando.

A Blockbuster percebeu a mudança

Existe uma versão popular dessa história em que a Blockbuster simplesmente ignorou a internet enquanto a Netflix construía o futuro diante dela. A realidade é mais interessante, porque a empresa tentou reagir: em 2004, lançou o Blockbuster Online nos Estados Unidos, permitindo que clientes alugassem DVDs pela internet e os recebessem pelo correio. No mesmo período, a própria companhia já reconhecia em seus documentos financeiros que o mercado tradicional de aluguel em lojas estava encolhendo.

O problema é que o modelo antigo ainda era enorme: no final de 2004, a Blockbuster tinha cerca de 9.100 lojas nos Estados Unidos e em outros 24 países, com receita anual de aproximadamente US$ 6,1 bilhões. Administrar uma estrutura desse tamanho e, ao mesmo tempo, decidir quanto dinheiro, tempo e atenção destinar à construção de um modelo que — se der certo — tornará parte dessa mesma estrutura desnecessária, é um dilema bem mais difícil do que parece. É relativamente fácil decidir mudar quando o negócio antigo já parou de funcionar; muito mais difícil é fazer isso enquanto ele ainda paga as contas. Esse dilema aparece em empresas de todos os tamanhos: o produto atual financia salários, investimentos e a própria inovação necessária para substituí-lo, e quanto mais a organização depende dessa receita, mais doloroso fica construir algo que ameace sua principal fonte de dinheiro.

9.100 lojas
nos EUA e em 24 países, no final de 2004
No mesmo ano, a receita anual era de aproximadamente US$ 6,1 bilhões — uma estrutura gigante para sustentar enquanto se tentava mudar.
US$ 50 milhões
oferta para comprar a Netflix, recusada pela Blockbuster em 2000
Na época, avaliar essa recusa como "o erro" é mais fácil em retrospecto do que era prever o futuro naquele momento.

Até as multas viraram um problema

Durante anos, as multas por atraso na devolução fizeram parte do modelo das locadoras — e também estavam entre as maiores reclamações dos consumidores, virando uma porta de entrada para concorrentes que ofereciam algo diferente. A Blockbuster percebeu essa insatisfação e, no início de 2005, lançou uma iniciativa para eliminar as multas tradicionais em milhares de lojas, tentando retirar justamente um dos pontos que tornavam alternativas como a Netflix mais atraentes.

Mas melhorar o modelo antigo não significava construir o modelo que dominaria o futuro. A Blockbuster ainda precisava administrar milhares de lojas, estoques, funcionários e contratos enquanto investia, ao mesmo tempo, em sua operação online. A Netflix, por outro lado, não tinha milhares de pontos físicos para proteger e podia concentrar recursos e estratégia inteiramente no comportamento que estava surgindo. Essa diferença explica por que empresas estabelecidas podem ter mais recursos que seus concorrentes e, ainda assim, enfrentar mais dificuldade para mudar.

O problema não era só a Netflix

Enquanto as duas empresas disputavam clientes, o mercado inteiro continuava se transformando: DVDs ficaram mais baratos para compra, serviços de aluguel pelo correio cresceram, máquinas automáticas passaram a permitir alugar filmes sem entrar em uma locadora grande, e a distribuição digital começava a sugerir que, no futuro, talvez nem o disco físico fosse necessário.

A pergunta do consumidor foi mudando aos poucos. Durante anos, a Blockbuster competiu para ser um dos melhores lugares para encontrar um filme; com o tempo, o mercado deixou de perguntar qual era a melhor locadora e passou a questionar por que seria necessário ir até uma locadora. A diferença parece pequena, mas pode transformar uma indústria inteira: uma empresa pode passar anos tentando construir a melhor solução para uma tarefa e descobrir que seu maior concorrente não está tentando fazer a mesma coisa melhor — está tentando tornar aquela tarefa desnecessária. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer negócio seja entender o que o cliente realmente quer: quem entrava numa Blockbuster não desejava visitar uma locadora, desejava assistir a um filme. Ir até a loja era, durante muito tempo, apenas uma das melhores formas disponíveis de conseguir isso.

Quando a vantagem começa a pesar

A Blockbuster continuou tentando reagir. Seu serviço online cresceu, e a empresa buscou integrar internet e lojas físicas, tentando transformar em vantagem justamente a estrutura que a Netflix não tinha. A ideia fazia sentido no papel. Mas transformar uma companhia daquele tamanho era caro, e a receita das locações tradicionais começou a cair justamente quando a empresa mais precisava financiar o futuro — as lojas que por décadas foram sua força passaram a exigir recursos num mercado em que o comportamento do consumidor mudava rápido demais.

A dificuldade da Blockbuster, portanto, não estava simplesmente em "descobrir a internet". Estava em aceitar que aquilo que a empresa havia construído ao longo de décadas poderia deixar de ser sua principal vantagem competitiva. Quando o sucesso depende de lojas, funcionários, contratos, processos e clientes acostumados a um certo comportamento, mudar significa aceitar que parte do que foi construído talvez perca valor — um peso que empresas novas simplesmente não carregam, porque não precisam proteger um modelo anterior enquanto constroem o próximo.

O fim da Blockbuster

Nos anos seguintes, a situação financeira da empresa piorou continuamente. As lojas começaram a fechar, novas formas de consumir filmes ganhavam espaço, e a Blockbuster carregava obrigações financeiras enquanto tentava encontrar um caminho em um mercado que já não funcionava como antes.

Blockbuster encolhendo, Netflix crescendo (2004–2010)
2004 2007 2009 2010
2004 — 9.094 lojas Blockbuster · 2,6 mi assinantes Netflix
2007 — ~7 mil lojas Blockbuster · 7,5 mi assinantes Netflix
2009 — ~4,8 mil lojas Blockbuster · 12,3 mi assinantes Netflix
2010 — encolhendo até a falência · ~20 mi assinantes Netflix
Lojas da Blockbuster
Assinantes da Netflix

Animação ilustrativa

Em setembro de 2010, a companhia entrou com pedido de proteção contra falência nos Estados Unidos — a empresa que havia colocado milhares de locadoras pelo mundo não sobreviveu à transformação do mercado que dominara por tanto tempo.

Mas dizer simplesmente que "a Netflix matou a Blockbuster" deixa uma parte importante de fora. A Blockbuster conhecia a Netflix, percebeu o crescimento do aluguel online, identificou as reclamações dos consumidores, viu o mercado físico encolher e tentou responder a várias dessas mudanças. O problema não foi apenas enxergar o futuro — foi conseguir transformar uma organização gigantesca enquanto o modelo anterior ainda exigia dinheiro, atenção e estrutura. Perceber uma mudança e conseguir executá-la são desafios completamente diferentes.

O que fica desse caso

Talvez o principal aprendizado seja este: não espere seu negócio parar de funcionar para começar a mudar. Quando uma ameaça se torna óbvia para todo mundo, parte do tempo disponível para reagir provavelmente já passou — por isso, mudanças no comportamento dos clientes precisam ser observadas mesmo quando a receita atual ainda está saudável. Isso não significa abandonar um negócio lucrativo a cada nova tecnologia que surge; significa criar espaço para experimentar enquanto ainda há dinheiro, tempo e liberdade para errar, porque esperar a transformação virar inevitável costuma obrigar a empresa a mudar justamente quando tem menos recursos para isso.

Vale também perguntar qual problema o cliente realmente quer resolver — as pessoas não queriam visitar uma locadora, queriam assistir a filmes, e a loja nunca foi o objetivo final do consumidor, apenas o melhor meio disponível na época. Esse raciocínio vale para praticamente qualquer negócio: seu cliente deseja seu produto, ou deseja o resultado que ele proporciona? Entender essa diferença ajuda a enxergar concorrentes que talvez nem se pareçam com sua empresa hoje.

Há ainda o risco de se apaixonar demais pela forma atual de ganhar dinheiro. Um modelo lucrativo cria incentivos naturais para ser protegido, e o problema aparece quando essa proteção começa a impedir a construção da próxima fonte de receita — em alguns casos, a inovação que ameaça o negócio atual precisa nascer dentro da própria empresa, por mais desconfortável que seja desenvolver algo capaz de reduzir a importância do que hoje sustenta a organização. Se existe uma boa chance de outra empresa fazer isso de qualquer forma, pode valer mais a pena enfrentar essa transformação primeiro.

O caso da Blockbuster mostra ainda que identificar uma tendência não é suficiente: a empresa entrou no aluguel online, tentou integrar o digital às lojas e respondeu a reclamações importantes dos consumidores — o que prova que companhias não fracassam apenas por serem incapazes de enxergar uma mudança. Elas também fracassam quando demoram para transformar percepção em execução, mudam num ritmo mais lento que o mercado, ou não conseguem direcionar recursos suficientes para o novo modelo enquanto ainda dependem do antigo. E, por fim, fica o alerta de não confundir tamanho com segurança: milhares de lojas, bilhões em receita e uma marca reconhecida mundialmente eram vantagens reais da Blockbuster, mas nenhuma vantagem competitiva é permanente só porque levou décadas para ser construída. Quando aquilo que o cliente valoriza muda, uma estrutura pensada para necessidades antigas pode perder importância — e, em alguns casos, virar até um custo que torna a adaptação mais difícil.

O que você está protegendo?

Talvez a parte mais interessante da história da Blockbuster não seja a famosa decisão de não comprar a Netflix — é fácil reconhecer uma oportunidade depois de saber que ela vai se transformar numa empresa gigantesca. A pergunta realmente difícil é outra: o que você faria se descobrisse que o futuro do seu negócio ameaça justamente aquilo que hoje gera seu dinheiro?

A Blockbuster construiu milhares de lojas porque, durante muitos anos, aquela estratégia funcionou extraordinariamente bem. Quanto maior a empresa ficava, mais recursos, processos e pessoas passavam a depender daquele modelo. O sucesso não impediu a mudança do mercado — e ainda tornou a transformação interna mais complexa quando ela finalmente se tornou inevitável. Talvez exista algo funcionando muito bem para você hoje: uma estratégia, um produto, uma forma de vender ou um conhecimento que por anos produziu resultados. Isso não significa que você deva abandoná-lo assim que algo novo aparecer — significa apenas que o sucesso de ontem não deveria impedir você de questionar o que precisará funcionar amanhã.


Para continuar aprendendo

Fontes consultadas

Blockbuster Inc. — Annual Report 2004
Blockbuster Inc. — Annual Report 2005
U.S. Securities and Exchange Commission — Blockbuster filings
Marc Randolph — That Will Never Work

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