Durante boa parte do século XX, fotografar um momento especial significava participar, de alguma forma, do mundo da Kodak. A empresa transformou a fotografia em um hábito popular e construiu uma das marcas mais reconhecidas do planeta.
Então surgiu uma tecnologia capaz de mudar completamente a maneira como as pessoas registravam imagens.
O detalhe mais surpreendente é que ela nasceu dentro da própria Kodak.
A empresa que colocou uma câmera nas mãos de todos
A história da Kodak começa muito antes da fotografia digital. Em 1880, George Eastman começou a fabricar placas fotográficas comercialmente nos Estados Unidos. Alguns anos depois, sua empresa ajudaria a tornar a fotografia muito mais simples e acessível.
Em 1888, a câmera Kodak chegou ao mercado acompanhada de uma proposta revolucionária para a época: o consumidor não precisava dominar todo o complicado processo fotográfico. A famosa ideia por trás do produto era simples: você apertava o botão e a empresa cuidava do restante.
Essa facilidade ajudou a transformar a fotografia de uma atividade técnica em algo que pessoas comuns poderiam incorporar às próprias vidas.
Ao longo das décadas seguintes, a Kodak construiu um enorme negócio em torno de câmeras, filmes fotográficos, produtos químicos, revelação e impressão.
Quanto mais fotografias as pessoas tiravam, mais filme precisavam comprar.
E esse detalhe seria fundamental para entender o problema que apareceria décadas depois.
1975: o futuro aparece dentro da Kodak
Em 1975, o engenheiro Steven Sasson, que trabalhava na Kodak, desenvolveu um protótipo que entraria para a história.
Era a primeira câmera digital.
O aparelho tinha aproximadamente o tamanho de uma torradeira, registrava imagens em preto e branco com resolução de apenas 0,01 megapixel e estava muito distante de qualquer produto que pudesse substituir imediatamente as câmeras tradicionais.
Mas o princípio estava ali: uma fotografia poderia ser capturada eletronicamente sem depender do filme fotográfico que sustentava uma parte importante do negócio da Kodak.
A empresa havia ajudado a inventar uma tecnologia que um dia poderia reduzir drasticamente a necessidade de seu produto mais importante.
O problema não era simplesmente enxergar o futuro
A história da Kodak costuma ser resumida de maneira tentadora: a empresa inventou a câmera digital, ignorou sua própria invenção e acabou derrotada por ela.
A realidade é mais complexa.
A Kodak não abandonou completamente a fotografia digital. Pelo contrário, continuou pesquisando a tecnologia. Em 1986, desenvolveu um sensor CCD de megapixel. Em 1991, apresentou um sistema profissional de câmera digital e, em 1995, lançou a câmera digital DC40 para consumidores.
Nos anos seguintes, continuaria desenvolvendo câmeras, sensores, impressoras, quiosques e serviços relacionados à fotografia digital.
Portanto, o problema não era apenas perceber que o digital existia.
Era descobrir como atravessar para esse novo mundo sem destruir o negócio que ainda sustentava a companhia.
Quando o seu melhor negócio vira uma prisão
Durante décadas, o filme fotográfico havia sido um negócio poderoso. Uma câmera podia ser comprada uma vez, mas cada nova sequência de fotografias exigia filme, processamento e impressão.
A fotografia digital alterava essa lógica.
Depois de comprar uma câmera digital, o consumidor poderia registrar centenas de imagens sem comprar um novo rolo a cada 24 ou 36 fotografias. Poderia apagar as que não gostasse, armazená-las no computador e, com a expansão da internet, compartilhá-las sem imprimir praticamente nada.
O valor começava a migrar do filme e da revelação para sensores, eletrônicos, software e, posteriormente, smartphones e serviços digitais.
Para uma empresa construída ao redor da fotografia química, essa não era apenas a chegada de um produto concorrente.
Era uma mudança na economia de toda a indústria.
A Kodak tentou entrar no digital
Nos anos 1990 e 2000, a Kodak passou a competir de maneira mais direta no mercado digital.
Em 2001, por exemplo, apresentou a linha EasyShare, criada para facilitar uma das maiores dificuldades da fotografia digital naquele momento: transferir as imagens da câmera para o computador e compartilhá-las.
A companhia também operou serviços de fotografia online, produziu câmeras digitais e acumulou um importante portfólio de patentes relacionadas a imagens digitais.
Mas participar de uma transformação não significa necessariamente capturar o valor criado por ela.
À medida que as câmeras digitais se tornavam melhores e mais baratas, o tradicional mercado de filmes fotográficos perdia importância. E logo surgiria uma transformação ainda maior.
A câmera deixou de ser apenas uma câmera
A popularização dos smartphones mudou novamente o mercado.
A câmera passou a estar permanentemente no bolso das pessoas, integrada ao aparelho que elas já utilizavam para acessar a internet, conversar e, mais tarde, publicar imagens nas redes sociais.
A fotografia deixou de depender de um objeto dedicado e passou a fazer parte de um ecossistema digital muito maior.
A Kodak possuía conhecimento em imagens digitais, câmeras e sensores. Mas empresas de eletrônicos, software e smartphones passaram a ocupar posições cada vez mais importantes nessa nova cadeia de valor.
A companhia que durante décadas esteve no centro da experiência de fotografar já não controlava o lugar onde as fotografias estavam sendo criadas, armazenadas e compartilhadas.
2012: a queda de um símbolo
Em janeiro de 2012, a Eastman Kodak entrou com pedido de proteção contra falência sob o Chapter 11 nos Estados Unidos.
Era uma imagem poderosa: uma empresa que havia ajudado a definir a fotografia durante mais de um século precisava se reorganizar justamente em uma época na qual nunca haviam sido produzidas tantas imagens.
A fotografia não havia desaparecido.
O mundo estava fotografando mais do que nunca.
O que havia desaparecido era boa parte da necessidade dos produtos que sustentaram o antigo modelo de negócio da Kodak.
Durante a reorganização, a companhia vendeu e separou diferentes ativos e deixou de fabricar diretamente diversas categorias de produtos de fotografia para consumidores. Em setembro de 2013, saiu do Chapter 11 transformada em uma empresa muito mais concentrada em tecnologias de impressão e soluções para clientes empresariais.
A Kodak não desapareceu
É importante fazer uma distinção: a falência de 2012 não significou o fim da Kodak.
A empresa continua existindo.
Hoje, sua atuação está muito mais concentrada em impressão comercial, materiais avançados, produtos químicos e tecnologias para empresas. A marca Kodak também continua aparecendo em alguns produtos de consumo por meio de parceiros e acordos de licenciamento.
Isso torna a história ainda mais interessante.
Não estamos diante de uma empresa que simplesmente desapareceu porque não conhecia uma nova tecnologia. Estamos diante de uma organização que precisou se tornar algo diferente depois que o mercado que sustentava sua antiga grandeza mudou profundamente.
O verdadeiro fracasso da Kodak
A Kodak é frequentemente apresentada como exemplo de uma empresa incapaz de inovar.
Mas uma companhia incapaz de inovar dificilmente teria inventado a câmera digital.
Talvez a lição mais importante seja outra.
Empresas estabelecidas não precisam apenas descobrir a próxima tecnologia. Elas precisam estar dispostas a aceitar que essa tecnologia pode tornar menos valioso justamente aquilo que hoje lhes dá dinheiro, escala e vantagem competitiva.
É muito mais fácil apostar em uma inovação quando ela ameaça o negócio de outra pessoa.
Quando ela ameaça o seu próprio sucesso, a decisão se torna muito mais difícil.
O que podemos aprender com a Kodak?
1. Inventar o futuro não garante liderá-lo. Ter acesso antecipado a uma tecnologia é uma enorme vantagem, mas ela só importa se a organização conseguir transformar conhecimento em estratégia, produto e modelo de negócio.
2. Produtos lucrativos também podem atrasar mudanças. Quanto melhor funciona o modelo atual, mais difícil pode ser aceitar uma alternativa que inicialmente parece menos rentável.
3. A maior ameaça pode nascer dentro da própria empresa. Uma inovação interna pode colocar em dúvida produtos, processos e competências que levaram décadas para serem construídos. Protegê-los a qualquer custo pode ser mais perigoso do que permitir que sejam substituídos.
4. Tecnologia e modelo de negócio precisam mudar juntos. A Kodak desenvolveu importantes tecnologias digitais. O desafio maior era encontrar uma posição igualmente poderosa na economia criada por elas.
5. O mercado não precisa desaparecer para uma empresa perder espaço. As pessoas não deixaram de fotografar. A fotografia se tornou ainda mais presente. O que mudou foi quem capturava valor cada vez que uma imagem era criada.
Uma invenção pode ameaçar quem a criou
A câmera digital de 1975 parecia apenas um experimento estranho construído dentro de um laboratório da Kodak.
Décadas depois, o princípio por trás daquele aparelho estaria presente em bilhões de dispositivos ao redor do mundo.
A Kodak viu parte desse futuro antes de quase todo mundo.
E talvez seja justamente isso que torne sua história tão valiosa.
O fracasso nem sempre acontece porque alguém não consegue enxergar a mudança.
Às vezes, enxergar é a parte fácil.
O difícil é aceitar tudo aquilo que precisará ser deixado para trás quando o futuro finalmente chegar.