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Histórias

A História do iFood

O iFood começou com cardápios impressos e se transformou em uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil.

Antes de existir um aplicativo capaz de mostrar centenas de restaurantes em poucos segundos, pedir comida em casa era uma experiência bem diferente: era preciso conhecer o restaurante, encontrar o telefone, descobrir o cardápio e ligar para fazer o pedido.

Foi justamente nesse problema que começou uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil. Em 2011, Patrick Sigrist, Eduardo Baer, Guilherme Bonifácio e Felipe Fioravante criaram o Disk Cook, um negócio baseado em um conceito simples: reunir cardápios de restaurantes em um guia impresso e facilitar os pedidos através de uma central telefônica. Não parecia exatamente o início de uma empresa de tecnologia, mas havia algo muito mais importante por trás daquele guia: um comportamento que estava prestes a mudar.

2011

Nasce o Disk Cook

Guia impresso de cardápios com pedidos por central telefônica — o embrião do que se tornaria o iFood.

2012

Lançamento do app

Site e aplicativos para Android e iOS. Nos primeiros 6 meses: ~600 restaurantes e ~16 mil pedidos.

2013

Investimento da Movile

Primeiro aporte do grupo brasileiro de tecnologia. Nessa época, pouco mais de 100 mil pedidos por mês.

2014–2016

Fusões RestauranteWeb e SpoonRocket

Expansão via aquisições soma restaurantes, usuários e tecnologia sem construir tudo do zero.

2019

Aquisição da Hekima

Empresa de inteligência artificial e ciência de dados comprada quando a plataforma já registrava ~20 milhões de pedidos por mês.

2022

Movile assume 100%

Compra a participação restante da Just Eat, enquanto o iFood se expande para mercados, farmácias, pet shops e serviços financeiros.

2026

R$ 24 bi em investimentos

Quinze anos após o Disk Cook, um dos maiores ciclos de investimento da história da empresa é anunciado.

Toque em cada marco para ver mais detalhes

Antes do aplicativo, havia papel e telefone

O Disk Cook ajudava consumidores a descobrir restaurantes e fazer pedidos, mas o modelo ainda dependia de uma operação bastante manual — o cliente escolhia o que queria comer, entrava em contato com a central, e o pedido precisava chegar ao restaurante por esse caminho. A ideia resolvia um problema real, mas a tecnologia começava a oferecer uma forma muito mais eficiente de fazer exatamente a mesma coisa. Em vez de defender o formato que já existia, os fundadores decidiram mudar: em 2012, surgiram o site e os aplicativos do iFood para Android e iOS.

Nos primeiros seis meses, o aplicativo reunia cerca de 600 restaurantes e recebia aproximadamente 16 mil pedidos. Curiosamente, mesmo sendo um aplicativo, boa parte da operação ainda acontecia manualmente nos bastidores — a tecnologia havia mudado a experiência do consumidor antes de transformar completamente a operação por trás dela. Essa primeira mudança já diz muito sobre o que o iFood se tornaria: o negócio não estava preso à ideia de distribuir cardápios ou operar uma central telefônica. O verdadeiro problema era facilitar a conexão entre quem queria pedir comida e quem podia prepará-la — e quando surgiu uma forma melhor de resolver isso, a solução anterior podia ser abandonada sem hesitação.

O investimento que mudou a velocidade

Em 2013, o iFood recebeu seu primeiro investimento da Movile, grupo brasileiro de tecnologia criado por Fabricio Bloisi. Naquele momento, a empresa ainda tinha uma equipe pequena e realizava pouco mais de 100 mil pedidos por mês, mas o modelo de negócio já tinha uma característica importante: quanto mais restaurantes entravam na plataforma, mais interessante ela ficava para os consumidores, e quanto mais consumidores usavam o aplicativo, mais interessante ele se tornava para os restaurantes — um efeito que fortalecia a plataforma conforme ela crescia.

O dinheiro da Movile ajudaria a acelerar esse processo, mas investir em marketing não seria suficiente. O iFood precisava aumentar sua presença, conquistar restaurantes e atrair consumidores rapidamente, num mercado que já despertava o interesse de outros competidores. Parte dessa expansão veio por meio de fusões: em 2014, o iFood se uniu ao RestauranteWeb, outro serviço brasileiro de pedidos de comida pela internet; em 2015, a plataforma já alcançava cerca de 1 milhão de pedidos mensais; e no ano seguinte veio outra fusão importante, com a SpoonRocket. Esses movimentos permitiram somar restaurantes, usuários, tecnologia e conhecimento sem precisar construir tudo do zero — mas crescer também significava assumir problemas que antes não faziam parte do negócio.

Não bastava mais receber o pedido

No modelo original, o iFood conectava consumidor e restaurante, mas a entrega continuava sendo responsabilidade do próprio estabelecimento — uma limitação importante, já que um restaurante podia preparar uma ótima comida e, mesmo assim, ter dificuldade para participar daquele novo comportamento digital simplesmente por não ter estrutura própria de entrega. O iFood começou então a desenvolver seu próprio modelo logístico, uma mudança significativa: a empresa deixava de cuidar apenas da tecnologia por trás do pedido e passava a enfrentar um dos problemas mais difíceis do delivery — fazer milhares de entregas acontecerem no mundo real, combinando localização, distância, disponibilidade de entregadores, tempo de preparo, trânsito e demanda. Para quem estava no sofá escolhendo o jantar, o aplicativo precisava continuar parecendo simples; nos bastidores, o negócio ficava cada vez mais complexo.

O crescimento dos pedidos mensais do iFood
16 mil
2012
100 mil
2013
1 milhão
2015
20 milhões
2019

Animação ilustrativa · pedidos por mês

Esse crescimento aumentou também a importância dos dados. Em 2019, o iFood adquiriu a Hekima, empresa brasileira especializada em inteligência artificial e ciência de dados. Naquele ano, a plataforma já registrava cerca de 20 milhões de pedidos por mês, e decisões que antes podiam ser tomadas manualmente — quais restaurantes aparecer primeiro, quanto tempo uma entrega levaria, onde havia maior demanda, como aproximar um entregador de um pedido — agora precisavam acontecer milhões de vezes por dia. Dados e algoritmos passaram a ocupar um espaço cada vez mais central na operação. O guia impresso de cardápios havia ficado muito para trás.

Quando o mundo fechou

Em 2020, a pandemia transformou a relação de milhões de pessoas com as entregas. Restaurantes enfrentaram restrições de funcionamento, consumidores passaram mais tempo em casa, e atividades que ainda dependiam do ambiente físico precisaram encontrar alternativas digitais rapidamente. O delivery deixou de ser apenas conveniência e passou a ocupar um lugar bem mais importante no cotidiano — o iFood também acelerou outras categorias, como o serviço de mercados, que ganhou escala nacional nesse período.

Mas crescer não trouxe só oportunidades. Quanto maior a plataforma ficava, maior também se tornava sua influência sobre restaurantes, consumidores e entregadores, e discussões sobre taxas cobradas dos estabelecimentos, dependência das plataformas, remuneração, segurança e condições de trabalho dos entregadores passaram a ocupar cada vez mais espaço. É uma mudança comum na vida de qualquer plataforma: quando uma empresa é pequena, sua principal preocupação é provar que o modelo funciona; quando milhões de pessoas passam a depender dela, suas decisões passam a ter consequências muito maiores. O desafio deixa de ser apenas crescer e passa a incluir como administrar o ecossistema criado por esse crescimento.

De aplicativo de comida para ecossistema

Em 2022, a Movile adquiriu a participação restante da Just Eat no iFood e passou a controlar 100% da empresa, enquanto o negócio continuava se expandindo para além dos restaurantes: mercados, farmácias, pet shops e outras lojas passaram a ocupar mais espaço na plataforma. O iFood também avançou para serviços financeiros com o iFood Pago e passou a oferecer outras ferramentas para restaurantes.

A lógica dessa expansão é interessante: se a empresa já havia construído uma relação frequente com consumidores e estabelecimentos, podia usar essa mesma infraestrutura para resolver outros problemas próximos daquele que havia solucionado originalmente. Em vez de ser apenas o aplicativo aberto na hora de pedir uma pizza, o iFood passou a tentar participar de diferentes momentos de consumo — e de uma parte maior da operação de seus parceiros. Em 2026, quinze anos depois de nascer, a empresa anunciou um dos maiores ciclos de investimento de sua história: R$ 24 bilhões previstos no Brasil entre abril de 2026 e março de 2027, destinados ao fortalecimento dos restaurantes, expansão de categorias como supermercados, farmácias e pet shops, desenvolvimento de tecnologia própria e crescimento dos serviços financeiros.

É uma transformação e tanto para um negócio que começou distribuindo cardápios impressos. O iFood nasceu tentando facilitar um pedido de comida e hoje tenta descobrir quantos outros problemas consegue resolver usando a infraestrutura, os dados e a escala construídos ao longo desse caminho.

R$ 24 bi
investimento anunciado no Brasil entre abril de 2026 e março de 2027
Um dos maiores ciclos de investimento da história da empresa, 15 anos depois do Disk Cook.
200×
crescimento de pedidos mensais entre 2013 e 2019
De pouco mais de 100 mil pedidos/mês para cerca de 20 milhões/mês em seis anos.

O que fica desse caso

Talvez a decisão mais importante da história do iFood tenha acontecido antes mesmo de a empresa ficar grande: apaixonar-se pelo problema, não pela primeira solução. O negócio começou com cardápios impressos e pedidos por telefone — se os fundadores tivessem tratado aquele guia como o produto a ser protegido a qualquer custo, poderiam ter perdido justamente a transformação que criaria o iFood. A pergunta mais útil para qualquer empresa não é só como melhorar o produto atual, mas qual problema esse produto realmente resolve; quando surge uma forma melhor de resolver o mesmo problema, insistir na solução antiga pode transformar o que funcionava em obstáculo.

Há também uma lição sobre começar pequeno sem pensar pequeno: o iFood não tentou controlar toda a cadeia de delivery do Brasil de uma vez — primeiro ajudou pessoas a encontrar restaurantes e fazer pedidos, depois digitalizou o processo, somou logística, inteligência artificial, e só então expandiu para mercados e serviços financeiros. Grandes negócios costumam ser construídos em camadas: em vez de tentar resolver dez problemas ao mesmo tempo, pode ser mais eficiente resolver muito bem o primeiro e usar o que foi aprendido para descobrir qual deve ser o próximo.

Vale notar ainda que escala muda o tipo de problema que uma empresa precisa resolver. Com poucos clientes, muita coisa pode ser feita manualmente; com milhões de pedidos, isso deixa de funcionar — processos, tecnologia e dados precisam evoluir junto com o crescimento, porque o que levou uma empresa a determinado tamanho pode não ser suficiente para levá-la ao próximo. É também um bom motivo para desconfiar da ideia de simplesmente copiar o que empresas grandes fazem: a solução certa depende do tamanho e do problema enfrentado naquele momento específico.

As aquisições do iFood — RestauranteWeb, SpoonRocket, Hekima — mostram como fusões podem comprar algo ainda mais valioso que receita: tempo. Em mercados que mudam rápido, construir uma tecnologia ou uma base de clientes do zero pode significar chegar tarde demais — mas isso não torna toda aquisição uma boa ideia por si só; ela precisa responder a uma necessidade estratégica clara, porque crescer só para ficar maior costuma apenas aumentar o tamanho dos problemas.

Por fim, fica a lição sobre responsabilidade em plataformas: o sucesso de um marketplace depende de diferentes participantes encontrando valor nele, e no caso do iFood, consumidores, restaurantes e entregadores têm interesses distintos — uma decisão que beneficia só um desses grupos pode prejudicar os outros. Quanto maior a importância de uma plataforma para um setor inteiro, mais necessário se torna entender não só quanto valor ela captura, mas como esse valor é distribuído entre quem ajuda o sistema a funcionar. E talvez o próximo crescimento sempre esteja no problema ao lado: depois de resolver bem uma dor, vale observar o que o cliente enfrenta logo antes ou depois dela — muitas vezes a próxima oportunidade não exige um mercado totalmente novo, só enxergar o que ainda está mal resolvido dentro da experiência que a empresa já domina.

Do papel para milhões de pedidos

É fácil olhar para o iFood atual e imaginar que o objetivo sempre foi construir uma enorme plataforma de tecnologia. A história mostra outra coisa: tudo começou com uma tentativa bem mais simples de facilitar a escolha de um restaurante e o pedido de uma refeição. O cardápio impresso deu lugar ao site, o site abriu espaço para o aplicativo, e o aplicativo ganhou logística, dados, inteligência artificial e novos serviços — cada etapa surgiu porque a empresa continuou olhando para o problema que precisava resolver, em vez de tratar a solução anterior como algo a ser preservado a qualquer custo.

Talvez essa seja a principal lição da história do iFood: uma empresa não precisa nascer já sabendo qual será sua solução no futuro. Precisa entender bem o suficiente o problema que quer resolver para perceber, a cada etapa, quando aquilo que funcionou até ali deixou de ser a melhor forma de resolvê-lo.


Para continuar aprendendo

Fontes consultadas

iFood — História do iFood
iFood — Linha do tempo: conheça a história do iFood
iFood — Conheça a trajetória, missão, visão e valores do iFood
iFood — O que é o iFood e quem é o dono
Reuters — iFood anuncia investimento de R$ 24 bilhões no Brasil
Forbes Brasil — O plano de R$ 24 bilhões do iFood para crescer além do delivery de comida

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