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Neymar no PSG: €222 milhões depois

A transferência mais cara da história deveria iniciar a fase definitiva da carreira do brasileiro. O resultado foi mais complicado.

Em agosto de 2017, o futebol testemunhou uma transferência que parecia impossível. O Paris Saint-Germain pagou a cláusula de rescisão de Neymar com o Barcelona: €222 milhões. Nenhum jogador havia custado tanto, e nenhum outro superou esse valor desde então.

Neymar tinha apenas 25 anos e já havia conquistado praticamente tudo no Barcelona. Ao lado de Lionel Messi e Luis Suárez, havia formado um dos ataques mais famosos da história recente do futebol. Tinha uma Champions League, títulos espanhóis e protagonismo em grandes partidas. Mas havia uma questão inevitável: no Barcelona de Messi, seria difícil ser o principal nome do projeto.

Paris oferecia uma possibilidade diferente. Neymar não chegaria para participar de uma equipe construída ao redor de outra estrela. Ele seria a estrela ao redor da qual uma equipe seria construída. A transferência parecia reunir ambição individual e empresarial em um mesmo objetivo: o PSG queria conquistar a Europa, enquanto Neymar tinha a oportunidade de construir seu próprio caminho até o topo do futebol mundial.

O jogador que já havia conquistado a Europa

Antes de Paris, Neymar já havia demonstrado que conseguia decidir no mais alto nível. Em 2015, marcou na final da Champions League contra a Juventus e terminou aquela edição como um dos artilheiros do torneio. O Barcelona conquistou a tríplice coroa, e Neymar, ainda jovem, parecia destinado a passar muitos anos disputando os maiores prêmios individuais do futebol.

Dois anos depois, protagonizou outra atuação histórica. Nas oitavas de final da Champions de 2017, o Barcelona precisava reverter uma derrota por 4 a 0 sofrida justamente contra o Paris Saint-Germain. Na partida de volta, Neymar participou diretamente da incrível vitória por 6 a 1 que classificou o clube espanhol.

Meses depois, seria exatamente o PSG que pagaria a maior quantia da história para contratá-lo. O clube francês não estava comprando apenas gols e dribles. Estava contratando um jogador que já havia provado que poderia decidir partidas capazes de mudar a história de uma competição.

€222 milhões para mudar a hierarquia do futebol

A contratação de Neymar fazia parte de uma ambição maior do Paris Saint-Germain. Desde que passou a receber grandes investimentos, o clube havia se tornado dominante na França, mas ainda buscava aquilo que realmente poderia colocá-lo entre os gigantes históricos da Europa: a Champions League.

Neymar era uma peça ideal para esse projeto. Tinha talento, experiência como campeão europeu, enorme valor comercial e idade suficiente para viver seus melhores anos em Paris. Pouco depois, o PSG também incorporaria Kylian Mbappé, formando um ataque que parecia capaz de enfrentar qualquer equipe do mundo.

Os primeiros números de Neymar reforçaram a expectativa. Ele produziu gols e assistências em grande quantidade, e o PSG continuou acumulando títulos nacionais. O desafio, porém, nunca foi simplesmente vencer a liga francesa. O projeto seria julgado principalmente pelo que acontecesse nas noites europeias.

Então as lesões começaram a interferir

Na primeira temporada de Neymar em Paris, o PSG encontrou o Real Madrid nas oitavas de final da Champions League. O clube espanhol venceu a primeira partida por 3 a 1. Antes do jogo de volta, Neymar sofreu uma lesão no pé direito e precisou passar por cirurgia, ficando fora da partida decisiva. O PSG foi novamente derrotado e eliminado.

Na temporada seguinte, outro problema no mesmo pé afastou Neymar durante uma parte importante do calendário. O brasileiro também não participou dos confrontos contra o Manchester United pelas oitavas de final da Champions. O PSG venceu o primeiro jogo na Inglaterra por 2 a 0, mas perdeu por 3 a 1 em Paris e foi eliminado pelo critério de gols fora de casa utilizado naquela época.

Esse seria um dos elementos mais frustrantes de sua passagem pelo clube. Em diferentes momentos, Neymar estava disponível e jogava em altíssimo nível. Em outros, problemas físicos surgiam justamente quando a temporada europeia chegava às partidas que poderiam definir o projeto.

Em 2020, o sonho ficou a uma partida de distância

A temporada 2019/20 mostrou o que poderia acontecer quando Neymar estava disponível na fase decisiva. Em uma edição atípica da Champions League, concluída em Portugal depois da interrupção causada pela pandemia, o PSG finalmente avançou pelas fases que haviam se transformado em obstáculos nos anos anteriores.

Com Neymar em campo, o clube eliminou Borussia Dortmund, Atalanta e RB Leipzig e chegou pela primeira vez à final da Champions League. O adversário seria o Bayern de Munique.

Em Lisboa, o PSG teve oportunidades, mas perdeu por 1 a 0. Kingsley Coman, curiosamente formado nas categorias de base do próprio clube francês, marcou o único gol da decisão. Neymar terminou a partida visivelmente abalado.

Foi o momento em que a grande aposta de 2017 chegou mais perto de ser completamente justificada. Uma vitória teria transformado Neymar no principal nome do primeiro título europeu da história do PSG. Em vez disso, Paris voltou para casa com a melhor campanha de sua história, mas ainda sem o troféu que perseguia.

Messi chegou a Paris, mas a Champions continuou distante

Nos anos seguintes, o projeto se tornou ainda mais estrelado. Em 2021, Lionel Messi deixou o Barcelona e se juntou a Neymar e Mbappé no PSG. Poucas equipes na história haviam reunido três atacantes com tamanho reconhecimento mundial.

Mais uma vez, porém, nomes extraordinários não produziram automaticamente domínio europeu. O PSG caiu nas oitavas de final para o Real Madrid em 2022 e novamente nessa fase para o Bayern de Munique em 2023.

A passagem de Neymar por Paris estava chegando ao fim. Ele havia conquistado diversos títulos nacionais, marcado mais de uma centena de gols pelo clube e participado da melhor campanha europeia de sua história até então. Mas o objetivo que havia definido grande parte das expectativas em torno da contratação continuava faltando.

Seis temporadas depois, a despedida

Em agosto de 2023, Neymar deixou o Paris Saint-Germain. Segundo o próprio PSG, ele encerrou sua passagem com 118 gols em 173 partidas, além de vários títulos nacionais. O clube o descreveu em sua despedida como uma de suas lendas.

Esses números deixam claro por que classificar simplesmente sua passagem como “fracasso” seria incorreto. Neymar teve enorme produção esportiva em Paris e conquistou títulos. A questão é outra: a contratação mais cara da história carregava expectativas muito superiores às de uma transferência comum.

Quando €222 milhões são investidos em um jogador para ajudar um clube a conquistar aquilo que nunca conquistou, a régua muda. O PSG conseguiu chegar muito perto em 2020, mas Neymar deixou Paris sem levantar a Champions League.

A Arábia Saudita deveria representar um novo capítulo

Depois de Paris, Neymar assinou com o Al-Hilal em agosto de 2023. O clube saudita pagou aproximadamente €90 milhões por sua contratação, em mais uma transferência de enorme repercussão internacional.

O novo capítulo, entretanto, seria profundamente afetado por um acontecimento que não ocorreu vestindo a camisa do clube. Em outubro daquele ano, durante uma partida da seleção brasileira contra o Uruguai pelas Eliminatórias, Neymar sofreu uma grave lesão no joelho esquerdo.

A recuperação foi longa. Quando finalmente retornou aos gramados, novos problemas físicos dificultaram a sequência. Em janeiro de 2025, Neymar e Al-Hilal chegaram a um acordo para encerrar antecipadamente o contrato. Segundo a Reuters, ele havia disputado apenas sete partidas pelo clube.

Uma transferência de aproximadamente €90 milhões terminou com muito menos futebol do que qualquer uma das partes poderia imaginar quando o contrato foi assinado.

Então Neymar voltou para onde tudo começou

Depois da saída do Al-Hilal, Neymar retornou ao Santos em 2025, clube onde havia surgido para o futebol mundial. O retorno transformou uma trajetória que parecia seguir continuamente em direção a clubes cada vez mais ricos em uma história circular: depois de Barcelona, Paris e Arábia Saudita, ele estava novamente na Vila Belmiro.

A volta também trouxe uma nova missão. Já não se tratava de provar que Neymar possuía talento suficiente para estar entre os melhores do mundo. Isso havia sido demonstrado havia muito tempo. O desafio era recuperar continuidade física e voltar a competir em alto nível depois de anos em que as lesões passaram a ocupar espaço demais na narrativa de sua carreira.

Em 2026, essa história ganhou mais um capítulo quando Neymar voltou a atuar pela seleção brasileira depois de quase três anos afastado. Aos 34 anos, sua carreira já não podia ser analisada apenas pela pergunta sobre aquilo que ainda conquistaria, mas também pelo enorme contraste entre tudo que realizou e tudo que parecia possível quando estava no auge.

O grande fracasso de Neymar foi não ser Messi?

Essa talvez seja a maneira mais injusta de analisar sua carreira. Neymar marcou centenas de gols, conquistou a Libertadores, venceu a Champions League, ganhou títulos em diferentes países e tornou-se um dos maiores artilheiros da história da seleção brasileira. Para praticamente qualquer jogador profissional, seria uma carreira extraordinária.

O problema é que Neymar nunca foi comparado a praticamente qualquer jogador. Desde muito jovem, ele foi colocado na pequena categoria daqueles que poderiam dominar uma geração. Quando chegou ao Barcelona, dividiu o campo com Messi. Quando foi para Paris, a transferência foi interpretada como a oportunidade de finalmente construir um projeto no qual ele ocuparia o centro.

Por isso, existe um paradoxo interessante: Neymar pode ter construído uma carreira extremamente bem-sucedida e, ao mesmo tempo, deixar a sensação de que poderia ter alcançado ainda mais. O fracasso, nesse caso, não está necessariamente no que foi conquistado. Está na distância entre uma carreira excelente e as expectativas quase impossíveis criadas ao redor dela.

Nem tudo estava sob seu controle

É tentador observar uma carreira depois que os acontecimentos já ocorreram e imaginar que cada resultado foi consequência de uma decisão. Esportes não funcionam dessa maneira. Uma lesão pode acontecer em segundos e alterar uma temporada inteira. Um chute pode entrar ou acertar a trave. Uma equipe pode reunir grandes jogadores e ainda perder uma partida decisiva.

As lesões tiveram peso significativo na trajetória de Neymar depois da saída do Barcelona, especialmente em Paris e na Arábia Saudita. Isso não elimina discussões legítimas sobre escolhas profissionais ou expectativas, mas impede uma conclusão simplista segundo a qual tudo que aconteceu foi resultado apenas de decisões individuais.

Uma das maiores dificuldades de qualquer carreira é justamente essa: somos responsáveis por nossas escolhas, mas nunca controlamos completamente suas consequências.

A transferência que deveria mudar tudo

Quando Neymar deixou o Barcelona em 2017, ele tomou uma das decisões mais ousadas da história recente do futebol. Permanecer significava continuar em uma equipe extraordinária, mas dividindo o protagonismo com Lionel Messi. Paris oferecia dinheiro, ambição e a possibilidade de construir algo ao seu redor.

A escolha fazia sentido. E talvez essa seja justamente a parte mais interessante dessa história. Decisões que terminam abaixo das expectativas não precisam ter sido obviamente ruins quando foram tomadas. Muitas vezes, só parecem evidentes depois que conhecemos o resultado.

O PSG chegou a uma final de Champions com Neymar, mas não conquistou o torneio durante seus seis anos no clube. Neymar teve grandes atuações, mas também enfrentou períodos importantes afastado. Depois, sua passagem pelo Al-Hilal foi praticamente interrompida por uma grave lesão sofrida pela seleção.

Não existe uma única decisão capaz de explicar tudo isso.

Por que essa história pertence ao Museu do Fracasso?

Porque o Museu do Fracasso não precisa contar apenas histórias de pessoas que perderam tudo. Algumas das melhores lições aparecem quando analisamos pessoas extraordinariamente bem-sucedidas que perseguiram um objetivo específico e não conseguiram alcançá-lo da maneira esperada.

Neymar não fracassou como jogador de futebol. Sua passagem pelo PSG também não foi um desastre esportivo. O fracasso está na promessa maior construída ao redor daquele projeto: a transferência mais cara da história deveria ajudar Paris a conquistar a Europa e oferecer a Neymar o palco para assumir definitivamente o centro do futebol mundial.

Isso não aconteceu. E talvez seja exatamente por isso que sua história seja tão fascinante. Às vezes, uma carreira pode ser extraordinária e ainda carregar a sensação de uma oportunidade que nunca se realizou por completo.

O que podemos aprender com esse fracasso?

1. Sucesso depende da régua utilizada.

118 gols pelo PSG e vários títulos nacionais seriam suficientes para definir muitas contratações como excelentes. Quando você é a transferência mais cara da história e chega associado ao sonho de conquistar a Champions, porém, as expectativas são diferentes.

2. Uma boa decisão pode produzir um resultado ruim.

Deixar o Barcelona para protagonizar outro grande projeto não era uma decisão absurda em 2017. Julgar escolhas apenas pelo resultado final ignora as informações disponíveis no momento em que elas foram tomadas.

3. Quanto maior a expectativa, menor parece cada conquista intermediária.

Neymar conquistou títulos e produziu grandes números em Paris, mas praticamente todas essas realizações foram comparadas ao objetivo que continuava faltando: a Champions League.

4. Nem todas as variáveis de uma carreira podem ser controladas.

Planejamento, treinamento e escolhas importam, mas lesões, adversários e acontecimentos imprevisíveis também podem modificar completamente uma trajetória.

5. Dinheiro consegue reunir talento, mas não comprar resultados.

O PSG investiu valores extraordinários e reuniu Neymar, Mbappé e posteriormente Messi. Mesmo assim, construir a melhor coleção de jogadores não garantiu automaticamente o principal título europeu.

6. Existe diferença entre fracassar e ficar abaixo do próprio potencial.

A carreira de Neymar possui conquistas que quase qualquer jogador gostaria de ter. O debate ao redor dela existe justamente porque seu talento criou expectativas ainda maiores.

7. Não julgue uma história apenas pelo que poderia ter sido.

Potencial é uma projeção. Conquistas são acontecimentos reais. Entender uma trajetória exige reconhecer oportunidades perdidas sem apagar aquilo que efetivamente foi realizado.


Para continuar aprendendo

Fontes consultadas

https://pt.psg.fr/equipes/equipe-principal/content/o-paris-saint-germain-agradece-a-neymar-jr-uma-lenda-do-clube
https://www.uefa.com/uefachampionsleague/history/seasons/2020/
https://www.reuters.com/sports/soccer/neymar-leaves-al-hilal-by-mutual-agreement-2025-01-28/
https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/01/28/sete-jogos-e-um-gol-em-17-meses-veja-como-foi-a-passagem-de-neymar-pelo-al-hilal.ghtml
https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/24/brasil-x-escocia-neymar-volta-a-jogar-pela-selecao-depois-de-981-dias.ghtml
https://www.cbf.com.br/selecao-brasileira/noticias/selecao-masculina/a/neymar-se-torna-segundo-jogador-a-vestir-a-camisa-10-do-brasil-em-quatro-copas

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