Quando Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição presidencial de 2022, seu retorno ao poder foi apresentado como uma oportunidade de reconstruir políticas públicas, recuperar a imagem internacional do Brasil e reduzir a polarização que havia marcado os anos anteriores.
Lula derrotou Jair Bolsonaro com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10%. A diferença pequena revelou que o novo presidente assumiria um país profundamente dividido. Ele não precisaria apenas administrar a economia e executar suas propostas. Também teria de governar para milhões de brasileiros que haviam votado contra ele.
O terceiro mandato começou, portanto, cercado por expectativas elevadas. Seus apoiadores esperavam uma retomada dos resultados sociais alcançados durante seus primeiros governos. Seus adversários temiam aumento dos gastos públicos, intervenção excessiva na economia e repetição dos problemas políticos associados às antigas administrações do Partido dos Trabalhadores.
O resultado foi um governo com conquistas importantes, mas que também encontrou dificuldades para transformar o retorno de Lula em estabilidade política e confiança duradoura.
Um retorno em um país diferente
Lula assumiu seu primeiro mandato em 2003, em um contexto político, econômico e tecnológico muito diferente. Vinte anos depois, encontrou um Congresso mais fragmentado, redes sociais mais influentes, maior polarização e menor confiança nas instituições.
O presidente também retornou ao cargo sem que seu partido tivesse maioria no Congresso. Para aprovar projetos, o governo precisou construir uma ampla coalizão com partidos de centro e negociar espaços na administração.
Essa estratégia produziu uma contradição. Durante a campanha, Lula falou em recuperar valores democráticos e reconstruir a política. Na prática, seu governo voltou a depender de alianças com grupos que haviam participado das administrações anteriores e que frequentemente possuíam prioridades diferentes das defendidas pelo PT.
A negociação faz parte de qualquer democracia. O problema aparece quando a necessidade de formar maioria reduz a coerência do governo ou cria uma distância muito grande entre as promessas eleitorais e as decisões tomadas depois da posse.
O ataque de 8 de janeiro
A primeira grande crise do mandato ocorreu apenas uma semana depois da posse. Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes contrários ao resultado eleitoral invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto.
O governo respondeu com intervenção na segurança pública do Distrito Federal e cooperação entre diferentes instituições. O episódio aproximou temporariamente Executivo, Congresso e Judiciário na defesa do resultado eleitoral.
A reação ajudou Lula a fortalecer a mensagem de proteção à democracia. Entretanto, o ataque também revelou a dimensão da radicalização política que o novo governo precisaria enfrentar.
A promessa de pacificação esbarrou em um ambiente no qual adversários não discutiam apenas políticas públicas, mas também questionavam a legitimidade do outro lado. A polarização continuou sendo utilizada tanto pela oposição quanto por setores governistas para mobilizar apoiadores.
A recuperação econômica
Os primeiros anos do terceiro mandato apresentaram resultados econômicos superiores a diversas previsões iniciais. De acordo com o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025.
O mercado de trabalho também melhorou. A taxa de desemprego caiu, enquanto a quantidade de pessoas ocupadas alcançou níveis elevados. O aumento do salário mínimo acima da inflação e a retomada de programas sociais contribuíram para ampliar a renda de parte da população.
Esses dados são apresentados pelo governo como evidências de que a combinação entre políticas sociais e estímulo à atividade econômica funcionou. A administração também destacou o crescimento do consumo, dos investimentos e da arrecadação.
Os resultados, contudo, não eliminaram todas as dificuldades. O crescimento perdeu força em 2025, os juros permaneceram elevados e muitas famílias continuaram percebendo preços altos em alimentos, serviços e moradia.
Essa diferença entre os indicadores gerais e a experiência cotidiana tornou-se um problema de comunicação. Um governo pode apresentar crescimento econômico e redução do desemprego, mas ainda enfrentar insatisfação quando parte da população não sente melhora proporcional em sua vida.
Inflação e custo de vida
O controle da inflação permaneceu como um dos principais desafios. O IPCA encerrou 2023 em 4,62%, 2024 em 4,83% e 2025 em 4,26%.
Embora o índice tenha desacelerado em 2025, os aumentos acumulados continuaram afetando o orçamento das famílias. Alimentos, energia, transporte e serviços possuem grande influência sobre a percepção econômica, mesmo quando a inflação geral apresenta melhora.
O governo adotou medidas de incentivo à produção, reajustou benefícios e buscou ampliar a renda. Entretanto, também criticou repetidamente o nível da taxa de juros estabelecida pelo Banco Central.
As críticas agradavam a setores que defendiam maior estímulo ao crescimento, mas aumentavam a tensão entre o governo e a autoridade monetária. A discussão demonstrou uma dificuldade recorrente: estimular a economia sem comprometer o controle dos preços e a confiança nas contas públicas.
A volta das políticas sociais
O terceiro mandato retomou o nome Bolsa Família e reformulou as regras do programa de transferência de renda. O governo também recuperou o Minha Casa, Minha Vida, reajustou o salário mínimo por uma política de valorização e ampliou iniciativas voltadas à alimentação, saúde e educação.
Para seus apoiadores, essas medidas representaram o retorno da prioridade social que marcou os primeiros governos Lula. Para os críticos, a ampliação das despesas exigia fontes permanentes de receita e maior controle do orçamento.
O desafio não estava apenas em criar ou recuperar programas. Era necessário garantir que eles produzissem resultados mensuráveis, alcançassem as pessoas certas e continuassem financeiramente sustentáveis.
Políticas públicas não devem ser avaliadas somente pelo valor anunciado ou pelo número inicial de beneficiários. Também precisam ser acompanhadas pela qualidade dos serviços, pela capacidade de reduzir desigualdades e por sua sustentabilidade no longo prazo.
A reforma tributária
Uma das principais realizações do período foi a aprovação da reforma tributária sobre o consumo. A Emenda Constitucional 132, promulgada em dezembro de 2023, iniciou a substituição de diferentes impostos por um novo sistema.
A reforma buscou simplificar uma estrutura tributária considerada excessivamente complexa. Sua aprovação exigiu negociação entre governo, Congresso, estados, municípios e setores econômicos.
A regulamentação avançou com a Lei Complementar 214, sancionada em 2025. A mudança terá implementação gradual, e seus resultados completos levarão anos para aparecer.
Embora Lula tenha apoiado e articulado a aprovação, a reforma não foi uma construção exclusiva do governo. Ela resultou de debates iniciados anteriormente e do trabalho conjunto entre diferentes forças políticas.
Essa experiência mostrou que reformas estruturais costumam avançar quando um governo aceita compartilhar protagonismo e construir acordos além de sua própria base.
A melhora nos indicadores ambientais
A política ambiental foi uma das áreas em que o terceiro mandato apresentou uma mudança mais visível em relação ao governo anterior. A fiscalização foi retomada, órgãos ambientais receberam maior destaque e o governo recuperou compromissos internacionais de proteção da Amazônia.
Segundo o INPE, a estimativa de desmatamento na Amazônia Legal caiu para 6.288 quilômetros quadrados no período de agosto de 2023 a julho de 2024. O resultado representou uma redução importante em comparação com os níveis registrados nos anos anteriores.
A melhora ajudou o Brasil a recuperar espaço em negociações climáticas e ampliou a possibilidade de receber recursos internacionais para preservação.
Apesar disso, conflitos entre proteção ambiental e desenvolvimento continuaram presentes. Projetos de infraestrutura, exploração de petróleo e expansão econômica dividiram integrantes do próprio governo.
O desafio passou a ser transformar a redução do desmatamento em uma política permanente, capaz de sobreviver às pressões econômicas e às mudanças de governo.
O problema das contas públicas
A área fiscal tornou-se uma das principais fontes de desgaste. O governo substituiu o teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal, criado para permitir crescimento controlado das despesas e, ao mesmo tempo, estabelecer metas para o resultado das contas públicas.
Na prática, cumprir essas metas mostrou-se difícil. O governo apostou em aumento de arrecadação, revisão de benefícios tributários e novas regras para diferentes setores. O Congresso, entretanto, resistiu a algumas medidas, enquanto agentes econômicos questionaram a capacidade de controlar o crescimento das despesas.
Os defensores do governo argumentam que investimentos sociais e públicos são necessários para estimular a economia e reduzir desigualdades. Os críticos afirmam que despesas permanentes sem receitas igualmente permanentes aumentam a dívida e pressionam os juros.
O problema não é simplesmente escolher entre gastar ou economizar. Um governo precisa definir prioridades, demonstrar como financiará seus programas e transmitir confiança de que conseguirá manter seus compromissos no futuro.
Ao alterar metas, negociar exceções e depender de receitas incertas, a administração teve dificuldades para convencer parte do mercado e da sociedade de que seu plano fiscal seria cumprido integralmente.
A difícil relação com o Congresso
Lula retornou ao poder com grande experiência em negociação política, mas encontrou um Congresso mais independente e conservador do que nos seus primeiros mandatos.
O governo conseguiu aprovar projetos importantes, como o arcabouço fiscal e a reforma tributária. Ao mesmo tempo, sofreu derrotas, teve vetos derrubados e precisou liberar recursos e cargos para assegurar apoio em votações.
As emendas parlamentares passaram a ocupar uma parcela relevante do orçamento, ampliando o poder do Congresso sobre a distribuição de recursos. Isso reduziu a capacidade do Executivo de definir sozinho suas prioridades.
Para seus apoiadores, as concessões foram necessárias diante da composição parlamentar escolhida pelos eleitores. Para os críticos, o governo repetiu métodos de negociação que o próprio campo político de Lula havia criticado durante outras administrações.
O resultado foi uma coalizão capaz de aprovar determinadas medidas, mas nem sempre comprometida com um projeto comum de governo.
Os problemas de comunicação
Lula sempre teve a comunicação direta como uma de suas principais habilidades políticas. Em seu terceiro mandato, porém, declarações improvisadas passaram a produzir crises e a disputar espaço com os anúncios do próprio governo.
Comentários sobre economia, política internacional, Banco Central e adversários frequentemente exigiram explicações posteriores. Em vez de fortalecer uma mensagem central, diferentes integrantes do governo apresentavam versões distintas sobre prioridades e decisões.
O governo também enfrentou dificuldades para comunicar resultados positivos a uma população que recebe informação de maneira fragmentada pelas redes sociais.
Culpar apenas a comunicação, entretanto, seria insuficiente. Quando a população não percebe melhora concreta em determinada área, uma campanha publicitária não resolve o problema. A comunicação precisa explicar resultados, reconhecer dificuldades e apresentar objetivos verificáveis.
Política internacional e controvérsias
O retorno de Lula ampliou novamente a participação do Brasil em fóruns internacionais. O governo retomou relações diplomáticas, defendeu a integração regional e buscou posicionar o país como interlocutor em questões ambientais e conflitos internacionais.
Essa presença recuperou espaços que haviam sido reduzidos nos anos anteriores. Ao mesmo tempo, algumas declarações do presidente geraram críticas dentro e fora do Brasil.
A tentativa de dialogar com diferentes governos foi vista pelos apoiadores como uma política externa independente. Os críticos apontaram ambiguidades na forma como Lula avaliava regimes autoritários e conflitos internacionais.
O episódio mostrou que experiência diplomática não elimina os riscos da comunicação. Quando um presidente fala em nome do país, suas palavras podem afetar alianças, negociações e a reputação internacional do governo.
A promessa de pacificação que não se realizou
Lula prometeu governar para todos e reduzir a tensão política. Entretanto, a polarização continuou presente durante seu mandato.
Parte dessa divisão não depende exclusivamente do presidente. Ela envolve partidos, influenciadores, movimentos políticos e um ambiente digital que recompensa conflitos. Ainda assim, o chefe do Executivo possui responsabilidade especial na construção do debate público.
Ao responder frequentemente aos adversários com linguagem eleitoral e manter Bolsonaro como referência constante, o governo ajudou a preservar a disputa entre dois campos políticos.
A comparação com o governo anterior funcionou como estratégia para mobilizar apoiadores, mas dificultou a criação de uma identidade completamente voltada para o futuro.
O governo Lula 3 fracassou?
Ainda não é possível apresentar uma conclusão definitiva, pois o mandato permanece em andamento. Qualquer avaliação precisa ser identificada como parcial e pode mudar com novos resultados.
Até setembro de 2026, o governo acumulou avanços relevantes: crescimento econômico, redução do desemprego, recuperação de políticas sociais, aprovação da reforma tributária e diminuição do desmatamento na Amazônia.
Por outro lado, não conseguiu produzir a estabilidade política prometida, enfrentou dificuldades para equilibrar as contas públicas, manteve uma relação instável com o Congresso e teve problemas para transformar indicadores positivos em confiança popular consistente.
O fracasso mais evidente, até aqui, está na distância entre a expectativa criada pelo retorno de Lula e a capacidade de reconstruir rapidamente o país. O presidente voltou com experiência, reconhecimento internacional e memória de antigos resultados, mas encontrou um Brasil muito diferente daquele que governou entre 2003 e 2010.
O passado ajudou Lula a vencer a eleição. Porém, não poderia resolver automaticamente os problemas do presente.
O que podemos aprender com o governo Lula?
1. Experiência não elimina novos desafios. Um líder pode retornar ao mesmo cargo e encontrar instituições, sociedade e economia completamente diferentes.
2. Promessas amplas criam expectativas difíceis de cumprir. Reconstruir políticas públicas, recuperar a economia e pacificar um país dividido são objetivos que exigem tempo, recursos e alianças.
3. Bons indicadores precisam alcançar a vida cotidiana. Crescimento econômico e queda do desemprego não garantem satisfação quando o custo de vida continua pressionando as famílias.
4. Políticas sociais precisam de sustentabilidade. Programas importantes dependem de planejamento, avaliação de resultados e fontes permanentes de financiamento.
5. Governar exige dividir poder. Sem maioria no Congresso, o Executivo precisa negociar. Essas negociações, porém, não podem eliminar completamente a identidade do governo.
6. Comunicação não corrige tudo, mas pode agravar problemas. Declarações contraditórias ou improvisadas desviam a atenção de resultados e aumentam a insegurança.
7. Comparar-se ao governo anterior não basta. Um novo mandato precisa ser avaliado por suas próprias promessas, escolhas e consequências.
Retornar ao lugar onde se teve sucesso não significa encontrar as mesmas condições que permitiram aquele sucesso.
O terceiro governo Lula mostra que uma vitória política pode representar simultaneamente um recomeço e uma armadilha. A memória dos primeiros mandatos elevou as expectativas, mas também tornou cada dificuldade mais visível.
A lição não está em declarar antecipadamente que o governo deu certo ou fracassou. Está em acompanhar a diferença entre aquilo que foi prometido, o que foi entregue e o preço das decisões tomadas.
Na democracia, governos não devem ser avaliados somente pela identidade de seus líderes ou pela rejeição aos seus adversários. Precisam ser julgados pelos resultados que deixam para a sociedade e pela capacidade de reconhecer e corrigir os próprios erros.