Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República apresentando-se como uma ruptura com a política tradicional. Sua campanha prometia combater a corrupção, reduzir o tamanho do Estado, liberalizar a economia, enfrentar a criminalidade e impedir a continuidade dos partidos que haviam governado o Brasil nas décadas anteriores.
Bolsonaro venceu a eleição com forte presença nas redes sociais e apoio de eleitores insatisfeitos com a crise econômica, os escândalos de corrupção e o sistema político. Para seus apoiadores, ele representava uma oportunidade de mudança. Para seus críticos, sua retórica agressiva e sua pouca experiência administrativa indicavam riscos para o país.
Quatro anos depois, Bolsonaro terminou o mandato com uma base política fiel, mas não conseguiu conquistar a maioria necessária para permanecer no cargo. Em 2022, recebeu 49,10% dos votos válidos no segundo turno e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 50,90%.
A margem foi pequena, mas o resultado teve grande significado político. Desde que a reeleição presidencial passou a ser permitida no Brasil, Bolsonaro foi o primeiro presidente em exercício a disputar um segundo mandato e não conseguir vencer.
A promessa de romper com a velha política
Um dos principais compromissos de Bolsonaro era governar sem repetir práticas associadas à chamada velha política. Durante a campanha, ele criticou negociações baseadas na distribuição de cargos e prometeu formar uma administração guiada por critérios técnicos.
Nos primeiros meses, o governo tentou sustentar uma relação menos estruturada com o Congresso. Entretanto, a ausência de uma coalizão consistente dificultou a aprovação de propostas e contribuiu para conflitos entre integrantes do próprio governo.
Ao longo do mandato, Bolsonaro aproximou-se de partidos do Centrão, grupo que ele havia criticado anteriormente. Essa aliança ofereceu maior proteção política e facilitou negociações no Congresso, mas também enfraqueceu a imagem de ruptura apresentada na eleição.
A aproximação não foi necessariamente diferente das alianças construídas por outros presidentes. O problema estava na distância entre o discurso utilizado para vencer a eleição e a estratégia adotada para conseguir governar.
Uma administração marcada por mudanças
O governo Bolsonaro apresentou grande rotatividade em áreas importantes. Ministros foram substituídos depois de conflitos internos, divergências com o presidente ou dificuldades de gestão.
Na educação, diferentes ministros passaram pelo cargo em um período relativamente curto. Na saúde, as mudanças tornaram-se especialmente relevantes durante a maior crise sanitária vivida pelo país em décadas.
A troca constante de autoridades dificultou a continuidade de projetos e transmitiu a impressão de que algumas áreas não possuíam uma direção estável. Ao mesmo tempo, integrantes do governo argumentavam que as substituições eram necessárias quando um ministro deixava de seguir as prioridades definidas pelo presidente.
O episódio demonstra um desafio comum de liderança: formar uma equipe não é suficiente. É necessário estabelecer objetivos claros, coordenar decisões e administrar divergências sem comprometer o funcionamento das instituições.
As reformas e entregas do governo
Uma análise equilibrada do período precisa reconhecer que o governo também aprovou mudanças relevantes. A Reforma da Previdência, promulgada em 2019, alterou regras de aposentadoria e buscou reduzir o crescimento das despesas previdenciárias.
O novo marco legal do saneamento, aprovado em 2020, ampliou a possibilidade de participação privada no setor e estabeleceu metas para a universalização dos serviços. Em 2021, também foi sancionada a autonomia formal do Banco Central, com mandatos definidos para seus dirigentes.
A digitalização de serviços públicos avançou, permitindo que diferentes documentos e atendimentos fossem acessados pela internet. O Pix, desenvolvido pelo Banco Central e lançado em 2020, modificou profundamente os pagamentos no país, embora seja importante lembrar que o projeto foi conduzido institucionalmente pelo próprio Banco Central.
Na etapa final do mandato, o mercado de trabalho apresentou recuperação. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego caiu para 7,9% no último trimestre de 2022. O PIB brasileiro, depois da forte queda ocorrida em 2020, cresceu nos dois anos seguintes e encerrou 2022 com avanço de 3%.
Esses resultados são apresentados pelos apoiadores de Bolsonaro como evidências de recuperação econômica. Os críticos observam que parte do crescimento ocorreu após a queda provocada pela pandemia e que os resultados também foram influenciados pelo cenário internacional e por medidas temporárias.
A pandemia e a maior crise do mandato
A pandemia de Covid-19 alterou completamente os rumos do governo. O Brasil precisou enfrentar uma emergência sanitária, uma recessão econômica e a necessidade de oferecer assistência financeira a milhões de pessoas.
O auxílio emergencial tornou-se uma das maiores políticas de transferência de renda já executadas no país. A medida foi essencial para famílias que perderam renda durante as restrições econômicas, embora seu valor e sua duração tenham sido objeto de intensas negociações entre o Executivo e o Congresso.
A condução pública da crise, entretanto, tornou-se o ponto mais criticado do governo Bolsonaro. O presidente entrou em conflito com governadores, questionou medidas de distanciamento, promoveu tratamentos sem eficácia comprovada contra a doença e fez declarações que diminuíam a gravidade da emergência.
O governo argumentava que precisava considerar simultaneamente a saúde e os efeitos econômicos das restrições. Ainda assim, a falta de uma comunicação nacional coordenada prejudicou a construção de confiança e transformou medidas sanitárias em uma disputa política.
A CPI da Pandemia, realizada pelo Senado em 2021, investigou decisões, contratos e possíveis omissões do governo. Seu relatório final recomendou o indiciamento de diversas pessoas, incluindo Bolsonaro. Essa recomendação parlamentar não equivale, por si só, a uma condenação judicial.
Independentemente das disputas jurídicas e partidárias, a pandemia expôs uma falha importante de liderança: em uma crise, mensagens contraditórias aumentam a insegurança da população e dificultam a coordenação entre diferentes níveis de governo.
Inflação, renda e insatisfação econômica
A economia foi afetada pela pandemia, por problemas nas cadeias globais de produção e pela elevação dos preços de alimentos, combustíveis e energia. Em 2021, o IPCA acumulou alta de 10,06%, pressionando especialmente as famílias de menor renda.
Em 2022, a inflação oficial desacelerou e encerrou o ano em 5,79%, mas os preços já acumulavam aumentos significativos. Mesmo com a melhora do emprego, muitos brasileiros continuavam sentindo perda de poder de compra.
O governo adotou medidas para reduzir preços e ampliar benefícios sociais, incluindo mudanças tributárias sobre combustíveis e o aumento temporário do Auxílio Brasil. Os apoiadores consideravam essas ações necessárias diante da crise. Os críticos apontavam seu custo fiscal e a proximidade com a eleição.
A experiência mostrou que indicadores positivos não produzem automaticamente uma sensação de prosperidade. Para o eleitor, a percepção econômica também depende do preço dos alimentos, das contas domésticas, da estabilidade da renda e das expectativas sobre o futuro.
O avanço do desmatamento
A política ambiental foi outro ponto de forte desgaste. Dados do sistema Prodes, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, registraram aumento do desmatamento na Amazônia Legal durante o mandato, atingindo um dos níveis mais elevados da série recente em 2021.
O governo defendia o desenvolvimento econômico da região, a exploração legal de recursos naturais e a soberania brasileira sobre a Amazônia. Seus críticos apontavam enfraquecimento da fiscalização, redução da capacidade de órgãos ambientais e mensagens que poderiam estimular ocupações ilegais.
A repercussão ultrapassou as fronteiras brasileiras. A política ambiental passou a afetar a imagem internacional do país e suas negociações comerciais e diplomáticas.
Esse episódio oferece uma lição sobre reputação: decisões internas podem produzir consequências econômicas e políticas externas, principalmente quando envolvem um patrimônio de importância mundial.
Os conflitos com as instituições
Durante o mandato, Bolsonaro manteve conflitos frequentes com o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, governadores, veículos de imprensa e integrantes do Congresso.
O confronto permanente mobilizava sua base de apoiadores, mas dificultava a construção de alianças fora dela. Em diferentes momentos, crises que poderiam ter sido administradas por negociação ganharam dimensão nacional por meio de declarações públicas e manifestações nas redes sociais.
O presidente também levantou repetidamente suspeitas sobre as urnas eletrônicas sem apresentar provas capazes de demonstrar fraude nos resultados eleitorais. Em julho de 2022, utilizou uma reunião com embaixadores para repetir questionamentos sobre o sistema de votação.
Em 2023, depois do encerramento de seu mandato, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que aquela reunião representou abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Por maioria de votos, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos contados a partir da eleição de 2022.
A decisão mostrou como uma estratégia de comunicação utilizada para fortalecer uma candidatura pode gerar consequências jurídicas e comprometer o futuro político de seu próprio líder.
A derrota de 2022
Bolsonaro chegou à eleição de 2022 com vantagens importantes. Ocupava a Presidência, possuía grande presença nas redes sociais, contava com uma base fiel e havia ampliado benefícios sociais nos meses anteriores à votação.
Mesmo assim, não conseguiu formar uma maioria. Sua rejeição permanecia elevada entre diferentes grupos, especialmente eleitores que desaprovavam sua atuação durante a pandemia, seus conflitos institucionais e seu estilo de comunicação.
Ao concentrar sua estratégia na mobilização dos apoiadores mais fiéis, Bolsonaro fortaleceu sua base, mas encontrou dificuldades para reconquistar eleitores moderados. A mesma comunicação que produzia entusiasmo em uma parcela da população gerava resistência em outra.
A derrota por uma margem estreita revelou um país profundamente dividido. Também mostrou que manter uma base mobilizada não é o mesmo que construir uma maioria eleitoral.
Foi realmente um governo fracassado?
Classificar um governo inteiro como sucesso ou fracasso depende dos critérios adotados. Bolsonaro aprovou reformas importantes, avançou na digitalização de serviços, encerrou o mandato com recuperação do emprego e preservou uma base política numerosa.
Por outro lado, não cumpriu plenamente sua promessa de romper com a política tradicional, enfrentou grave desgaste durante a pandemia, governou em conflito constante com instituições, registrou aumento do desmatamento e não conseguiu transformar sua força política em reeleição.
O fracasso mais objetivo foi eleitoral: o projeto de permanecer no poder por mais quatro anos foi derrotado. Também fracassou a promessa de reduzir a polarização por meio de uma mudança definitiva na forma de fazer política. Ao final do mandato, o país estava ainda mais dividido.
Isso não significa que todos os resultados tenham sido negativos nem que seus milhões de eleitores tenham deixado de apoiá-lo. Significa que as entregas do governo não foram suficientes para superar a rejeição acumulada durante os quatro anos.
O que podemos aprender com o governo Bolsonaro?
1. Uma base fiel não substitui uma maioria. Mobilizar apoiadores garante força política, mas vencer uma eleição nacional exige dialogar também com pessoas que pensam de maneira diferente.
2. Comunicação faz parte da gestão. Declarações presidenciais podem fortalecer ou enfraquecer políticas públicas. Em momentos de crise, clareza e coordenação são indispensáveis.
3. Prometer romper com o sistema é diferente de governar sem ele. Presidentes dependem do Congresso, das instituições e de alianças para transformar propostas em resultados.
4. Confrontos permanentes produzem custos. O conflito pode mobilizar seguidores no curto prazo, mas também aumenta a rejeição e reduz o espaço para negociação.
5. Resultados econômicos precisam chegar à vida cotidiana. Crescimento do PIB e queda do desemprego têm menor impacto político quando as famílias ainda percebem preços altos e insegurança.
6. Questionar instituições sem provas pode destruir confiança. Críticas são legítimas em uma democracia, mas acusações precisam ser sustentadas por evidências verificáveis.
7. Liderança é especialmente testada durante crises. A pandemia demonstrou que decisões técnicas, coordenação administrativa e responsabilidade na comunicação podem definir a avaliação de um governo inteiro.
Vencer uma eleição permite chegar ao poder. Governar exige transformar apoio em confiança, coordenação e resultados duradouros.
A trajetória do governo Bolsonaro mostra que popularidade intensa e rejeição elevada podem existir ao mesmo tempo. Seu mandato produziu reformas, mobilizou milhões de pessoas e modificou profundamente a política brasileira, mas terminou com a derrota do projeto de reeleição.
A principal lição não está em escolher um lado da polarização. Está em compreender que governos precisam ser avaliados por suas promessas, decisões, resultados e consequências. Na democracia, a força de um líder não é medida apenas pela fidelidade de seus apoiadores, mas também por sua capacidade de governar para quem não votou nele.