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George Lucas: o acordo que Hollywood subestimou

Antes de Star Wars ser um fenômeno, Lucas apostou em direitos que o estúdio não considerava particularmente valiosos.

Em meados da década de 1970, George Lucas tentava convencer Hollywood a financiar uma ideia que parecia estranha até mesmo para os padrões da ficção científica. Era uma aventura espacial inspirada em seriados antigos, mitologia, filmes de samurai e histórias de fantasia. Havia robôs, uma princesa, um contrabandista, uma criatura gigantesca chamada Chewbacca e uma força misteriosa que conectava o universo.

O projeto se chamaria Star Wars.

Hoje, qualquer executivo provavelmente faria tudo para controlar uma propriedade com esse nome. Naquele momento, porém, ninguém sabia se o público aceitaria aquilo. Lucas ainda estava longe de ser o criador de uma das franquias mais valiosas da cultura popular, e a 20th Century Fox estava financiando um filme cujo potencial comercial era impossível de prever.

Foi nesse cenário que aconteceu uma das negociações mais importantes da história de Hollywood. Lucas preservou direitos que pareciam muito menos valiosos antes do lançamento do filme: direitos relacionados às continuações e ao merchandising de Star Wars. O acordo ajudaria a transformar um diretor relativamente jovem em alguém capaz de construir seu próprio império fora do sistema tradicional dos grandes estúdios.

Antes de Star Wars, Lucas já havia descoberto que Hollywood não gostava de abrir mão do controle

George Lucas não chegou às negociações de Star Wars completamente desconhecido. Seu primeiro longa, THX 1138, havia sido lançado em 1971, e American Graffiti, de 1973, tornou-se um enorme sucesso em relação ao seu orçamento. O resultado deu ao diretor mais influência para negociar seu projeto seguinte.

Ao mesmo tempo, suas experiências anteriores haviam reforçado uma preocupação que acompanharia sua carreira: controle criativo. Lucas não queria apenas receber dinheiro para dirigir filmes de outras pessoas. Queria construir histórias próprias e manter capacidade de decidir como elas seriam desenvolvidas.

Star Wars tornava essa ambição ainda mais importante. Lucas já imaginava possibilidades para continuar aquela história antes mesmo de saber se o primeiro filme teria público. Segundo registros oficiais da própria franquia, durante as negociações com a 20th Century Fox ele conseguiu assegurar legalmente direitos sobre possíveis sequências, embora os detalhes dessas futuras produções ainda estivessem indefinidos.

Era uma aposta curiosa. Direitos sobre continuações são extremamente valiosos quando um filme é um sucesso. Quando ninguém sabe se haverá público suficiente para justificar uma segunda produção, podem parecer apenas palavras em um contrato.

A negociação que Hollywood não esqueceria

Ao longo dos anos, essa história ganhou uma versão quase lendária: George Lucas teria simplesmente recusado um salário maior e pedido os direitos de todos os brinquedos porque sabia que ficaria bilionário com eles. A realidade é mais interessante e menos mágica.

Lucas estava principalmente interessado em preservar controle sobre aquilo que havia criado e garantir que pudesse continuar contando a história caso o primeiro filme funcionasse. Merchandising fazia parte dessa estrutura, mas o mercado de produtos derivados de filmes ainda não possuía a escala que Star Wars ajudaria posteriormente a criar.

Isso é importante porque muda completamente a lição. Lucas não precisava prever exatamente quantas figuras de ação seriam vendidas nas décadas seguintes. Precisava perceber algo mais fundamental: uma história poderia possuir valor muito além do ingresso vendido no cinema.

A Fox aceitou a estrutura do acordo. Naquele momento, parecia estar financiando um filme de ficção científica arriscado. Ninguém poderia saber que também estava permitindo que o criador preservasse parte essencial daquilo que se tornaria uma gigantesca propriedade intelectual.

Então Star Wars chegou aos cinemas

Em 25 de maio de 1977, Star Wars começou sua trajetória nos cinemas americanos. O resultado superou drasticamente as expectativas. Filas se formaram, sessões lotaram e personagens praticamente desconhecidos se transformaram em fenômenos culturais.

O sucesso não ficou restrito às bilheterias. Crianças queriam continuar vivendo aquela aventura quando saíam do cinema. Queriam Luke Skywalker, Darth Vader, R2-D2, naves, sabres de luz e praticamente qualquer objeto que permitisse recriar aquele universo em casa.

Era exatamente aí que os direitos aparentemente secundários começaram a mostrar seu verdadeiro valor.

Havia apenas um problema: não existiam brinquedos suficientes

A demanda surpreendeu até quem estava responsável pelos produtos. A fabricante Kenner havia conseguido a licença para produzir brinquedos de Star Wars, mas não estava preparada para o tamanho do fenômeno durante o período de Natal de 1977.

Os bonecos que as crianças queriam simplesmente não estavam prontos em quantidade suficiente. A empresa encontrou uma solução que se tornaria parte da história do merchandising: vendeu o chamado Early Bird Certificate Package. Em vez de encontrar os personagens dentro da caixa, o comprador recebia um certificado que poderia ser enviado para receber as figuras posteriormente.

Em outras palavras, Star Wars havia criado uma situação extraordinária: consumidores estavam comprando uma caixa praticamente sem os brinquedos porque queriam garantir os produtos que ainda seriam fabricados.

As primeiras figuras chegaram aos consumidores no início de 1978. A linha cresceu rapidamente e personagens, veículos e cenários do universo de Star Wars começaram a ocupar lojas e quartos de crianças. O Smithsonian observa que a estratégia de combinar cinema, produtos e relacionamento com fãs ajudou a estabelecer um modelo que influenciaria profundamente a indústria do entretenimento.

George Lucas percebeu que Star Wars não precisava terminar quando os créditos apareciam

Essa talvez seja a parte mais importante da história. Um filme tradicional gera grande parte de sua receita durante uma janela relativamente curta. O público compra o ingresso, assiste ao filme e vai embora. Star Wars mostrou que um universo ficcional poderia continuar fazendo parte da vida do consumidor durante anos.

Brinquedos eram apenas uma das possibilidades. Vieram livros, quadrinhos, roupas, jogos, colecionáveis e inúmeros produtos licenciados. A própria história poderia continuar através de sequências e, posteriormente, novas gerações de filmes, séries e outras mídias.

Lucas havia criado mais do que um filme de sucesso. Possuía participação decisiva sobre uma propriedade intelectual capaz de gerar novas histórias e produtos continuamente.

E o dinheiro dos produtos permitiu algo ainda mais importante

O grande prêmio não era simplesmente ficar rico vendendo bonecos. A receita e o controle que Lucas conquistou deram a ele uma liberdade extremamente rara em Hollywood: a possibilidade de financiar seus próprios projetos e reduzir sua dependência dos estúdios.

Quando chegou a hora de produzir The Empire Strikes Back, Lucas tomou uma decisão arriscada. Em vez de simplesmente entregar o financiamento da continuação a um grande estúdio, decidiu bancar grande parte da produção utilizando seus próprios recursos e empréstimos.

A decisão colocava uma fortuna em risco. Se a continuação fracassasse ou ultrapassasse demais o orçamento, Lucas poderia enfrentar sérios problemas financeiros. E foi exatamente isso que quase aconteceu quando a produção sofreu atrasos e os custos aumentaram.

Décadas depois, Lucas explicou que queria controlar as continuações justamente para garantir que conseguiria completar a história. Para ele, independência financeira e controle criativo estavam profundamente ligados.

O diretor estava construindo uma empresa

Enquanto Star Wars crescia, George Lucas também construía infraestrutura ao redor de suas histórias. A Lucasfilm se expandiu, e empresas especializadas começaram a surgir ou ganhar importância dentro daquele ecossistema.

Uma das mais famosas foi a Industrial Light & Magic, criada originalmente para resolver um problema bastante específico: Lucas precisava produzir efeitos visuais que Hollywood não conseguia entregar da maneira que imaginava para Star Wars. A ILM posteriormente trabalharia em inúmeros filmes e ajudaria a transformar a indústria de efeitos visuais.

Também surgiriam operações ligadas a áudio, tecnologia, jogos, licenciamento e outras áreas. O cineasta que inicialmente precisava convencer um estúdio a financiar sua aventura espacial estava gradualmente construindo uma estrutura capaz de produzir, controlar e explorar comercialmente suas próprias propriedades.

A ironia: Hollywood aprendeu a lição

Depois de Star Wars, merchandising deixou de parecer apenas uma receita complementar pouco importante. Grandes estúdios passaram a olhar de maneira muito diferente para brinquedos, licenciamento e propriedades intelectuais capazes de gerar produtos durante anos.

Hoje parece completamente normal que um grande filme seja acompanhado por brinquedos, roupas, videogames, colecionáveis e dezenas de acordos comerciais. Na década de 1970, esse ecossistema ainda não funcionava na escala que conhecemos.

Star Wars não inventou o merchandising cinematográfico, mas demonstrou de maneira extraordinária quanto dinheiro e fidelidade poderiam existir fora da sala de cinema. O próprio StarWars.com reconhece que o sucesso dos brinquedos mudou profundamente a maneira como filmes e produtos passaram a se relacionar.

O que parecia secundário tornou-se parte do negócio principal

Existe uma diferença importante entre vender um produto e possuir uma propriedade intelectual. Um filme pode desaparecer das salas de cinema depois de alguns meses. Uma propriedade intelectual forte pode continuar produzindo valor durante décadas.

George Lucas conseguiu manter controle suficiente sobre Star Wars para explorar esse potencial. O universo poderia crescer através de novas histórias, personagens e produtos, enquanto cada novo lançamento reforçava o valor dos anteriores.

Isso criou um ciclo extremamente poderoso. Os filmes vendiam brinquedos. Os brinquedos mantinham os personagens presentes na vida das crianças. Os fãs cresciam ligados à franquia. Novos filmes encontravam uma audiência que já conhecia aquele universo. E uma nova geração começava o processo novamente.

Star Wars deixou de ser apenas um filme de 1977. Tornou-se uma marca que poderia atravessar gerações.

Décadas depois, apareceu alguém disposto a comprar tudo

Em 30 de outubro de 2012, a Walt Disney Company anunciou um acordo para adquirir a Lucasfilm. A transação foi avaliada em aproximadamente US$ 4,05 bilhões, divididos aproximadamente entre dinheiro e ações da Disney.

A Disney não estava pagando bilhões apenas pelos prédios, câmeras ou computadores da Lucasfilm. Em sua apresentação aos investidores, a própria companhia explicou que a avaliação da empresa era impulsionada principalmente pela franquia Star Wars e pelas possibilidades de utilizá-la em diferentes negócios.

Filmes eram apenas uma dessas possibilidades. Disney mencionava televisão, jogos, parques, produtos de consumo e outras formas de expandir a propriedade. Era a mesma lógica que havia começado décadas antes: o verdadeiro valor de Star Wars estava muito além de uma única tela.

George Lucas havia transformado uma ideia que encontrou resistência em Hollywood em um ativo pelo qual uma das maiores empresas de entretenimento do mundo estava disposta a pagar bilhões de dólares.

Então quem fracassou nessa história?

É tentador apontar para a 20th Century Fox e dizer que o estúdio cometeu um erro gigantesco ao permitir que Lucas preservasse direitos tão importantes. Em retrospecto, certamente teria sido extremamente valioso possuir uma parcela maior de tudo aquilo que Star Wars se tornaria.

Mas existe uma armadilha semelhante à história de Ronald Wayne e sua participação na Apple. Estamos utilizando informações que as pessoas envolvidas não possuíam quando a decisão foi tomada. Antes de maio de 1977, ninguém sabia que Star Wars se tornaria Star Wars.

Se o filme tivesse fracassado, os direitos sobre dezenas de continuações que nunca seriam produzidas e brinquedos que ninguém desejaria comprar teriam pouco valor. A Fox estava avaliando risco utilizando aquilo que sabia naquele momento.

O erro mais interessante, portanto, não foi simplesmente “dar bilhões para George Lucas”. Foi subestimar quanto valor uma propriedade intelectual poderia gerar fora de seu produto original.

Lucas também poderia ter escolhido o dinheiro imediato

Esse é o contraste que torna sua história tão interessante ao lado de outros casos do Museu do Fracasso. Quando alguém oferece dinheiro hoje em troca de um direito sobre algo que talvez tenha valor amanhã, existe uma escolha entre liquidez e possibilidade.

Lucas poderia ter concentrado sua negociação apenas em maximizar quanto receberia pelo trabalho naquele momento. Em vez disso, deu enorme importância a direitos que lhe permitiriam continuar controlando e expandindo sua criação.

Isso não significa que todo criador deva recusar dinheiro e acreditar que sua obra será o próximo Star Wars. A maioria não será. Significa apenas que contratos não distribuem apenas dinheiro: eles distribuem o futuro.

A verdadeira fortuna de George Lucas foi o controle

Os bilhões associados a Star Wars chamam atenção, mas talvez sejam consequência de algo mais fundamental. Lucas conseguiu preservar poder suficiente sobre sua criação para decidir como utilizá-la. Esse controle permitiu financiar continuações, desenvolver empresas, investir em tecnologia e construir um ecossistema ao redor de suas histórias.

O dinheiro proporcionou independência, e a independência aumentou o controle. O controle, por sua vez, permitiu que Lucas continuasse construindo ativos que geravam mais recursos. Foi um ciclo que gradualmente reduziu sua dependência do sistema de estúdios contra o qual sempre demonstrou resistência.

Quando finalmente decidiu vender a Lucasfilm em 2012, estava negociando de uma posição completamente diferente daquela do jovem diretor que precisava convencer a Fox a financiar Star Wars décadas antes.

Por que essa história pertence ao Museu do Fracasso?

Porque alguns fracassos só se tornam visíveis quando descobrimos aquilo que deixamos de valorizar. A Fox ganhou dinheiro com Star Wars e teve participação fundamental para que o primeiro filme existisse. Não estamos diante de uma empresa que simplesmente perdeu tudo.

O que a história revela é uma falha de percepção muito mais interessante: aquilo que parecia periférico ao negócio acabou se tornando uma das partes mais poderosas dele. O filme era o produto evidente. Os direitos, personagens, sequências e possibilidades comerciais pareciam acessórios. Com o tempo, ficou claro que esses “acessórios” poderiam sobreviver ao próprio lançamento cinematográfico por décadas.

George Lucas não precisou prever cada brinquedo, videogame, série ou atração que seria criada no futuro. Precisou apenas entender que possuir uma parte maior do futuro de sua criação poderia ser mais importante do que receber um pouco mais no presente.

Décadas depois, quando a Disney pagou aproximadamente US$ 4,05 bilhões pela Lucasfilm, essa ideia havia chegado à sua conclusão mais impressionante. O jovem diretor que lutava para manter controle sobre uma estranha aventura espacial terminou vendendo o universo que construiu por bilhões.

O que podemos aprender com esse fracasso?

1. Não olhe apenas para o produto. Descubra qual ativo existe por trás dele.

Star Wars começou como um filme, mas seu verdadeiro potencial estava nos personagens, histórias e no universo que poderiam continuar sendo explorados muito depois da estreia.

2. Direitos podem valer mais do que dinheiro imediato.

Um pagamento maior hoje pode parecer mais atraente, mas propriedade intelectual, participação societária e controle sobre trabalhos futuros podem possuir um valor muito maior no longo prazo.

3. Controle pode ser uma forma de capital.

Para Lucas, preservar direitos não significava apenas receber royalties. Significava possuir liberdade suficiente para decidir como as próximas histórias seriam produzidas e financiadas.

4. Um mercado pequeno hoje pode ser gigantesco amanhã.

Produtos derivados de filmes já existiam antes de Star Wars, mas o fenômeno demonstrou uma escala que ajudou a transformar a relação entre entretenimento, brinquedos e licenciamento.

5. Não confunda uma decisão ruim com uma decisão absurda.

É fácil criticar a Fox conhecendo o tamanho que Star Wars alcançou. Antes do lançamento, porém, ninguém tinha garantia de que existiria sequer uma continuação. Analisar fracassos exige separar aquilo que era previsível daquilo que só parece óbvio em retrospecto.

6. O melhor negócio pode não ser aquele que paga mais agora.

Negociações envolvem mais do que preço. Controle, propriedade, participação e possibilidades futuras podem ser tão importantes quanto o valor recebido imediatamente.

7. Quando você cria algo, pense no que ele pode se tornar.

Lucas enxergou Star Wars como algo que poderia continuar além do primeiro filme. Nem toda criação se transformará em uma franquia mundial, mas entender as possibilidades futuras de um ativo pode mudar completamente a maneira como negociamos seu valor no presente.


Para continuar aprendendo

Fontes consultadas

StarWars.com — The Long, Winding, and Shapeshifting Trail to Episodes VII, VIII & IX
StarWars.com — Empire at 40: George Lucas on The Empire Strikes Back
StarWars.com — 5 Ways Star Wars: A New Hope Changed Everything
Smithsonian National Air and Space Museum — Star Wars: A Merchandising Empire
The Walt Disney Company — Disney to Acquire Lucasfilm
The Walt Disney Company — Agreement to Acquire Lucasfilm Ltd. Conference Call
Vanity Fair — How Star Wars Began: As an Indie Film No Studio Wanted to Make

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